RT-One, Intel e identidades falsas: o que o Aos Fatos revelou
Em março de 2026, o projeto de jornalismo investigativo Aos Fatos publicou uma reportagem que deveria ter mudado o tom do debate sobre o data center de Uberlândia. A matéria, assinada por Luiz Fernando Menezes, revelou que a RT-One — empresa responsável pelo projeto bilionário — foi processada pela Intel por forjar uma parceria e que seu CEO, Fernando Palamone, inflou credenciais no LinkedIn.
A reportagem permanece no ar. A RT-One tentou derrubá-la na Justiça, mas não conseguiu.
Este artigo resume as principais revelações da investigação e o que elas significam para Uberlândia.
A falsa parceria com a Intel
Em agosto de 2024, o governo do Distrito Federal anunciou a assinatura de uma carta de intenções com a Intel para a instalação de um data center em Brasília. O problema: a Intel não participou da negociação.
Segundo a assessoria da Intel, em nota enviada ao Aos Fatos:
“A Intel foi falsamente representada por Palamone, que se apresentou como COO e VP da Intel, o que ele nunca foi.”
O acordo dizia que a Intel (representada por Palamone) teria como parceira local a RT-One, representada por outro sócio, Ricardo Pimentel. Uma foto do evento mostra Pimentel ao lado do então governador Ibaneis Rocha (MDB).
Ao saber do ocorrido, a Intel afirmou que “tomou as medidas legais cabíveis para cessar o uso indevido do nome da empresa, evitar a disseminação de informações falsas e proteger a reputação da empresa”.
Em outras palavras: a Intel processou a RT-One.
O currículo inflado do CEO
O LinkedIn de Fernando Palamone, CEO da RT-One, afirma que ele ocupou cargos de chefia em empresas como JSR North América, PDF Solutions, Citrix e, mais recentemente, teria sido COO e vice-presidente da Intel entre 2022 e 2024.
A Intel desmentiu essa informação ao Aos Fatos:
“As informações apresentadas em seu perfil no LinkedIn referente ao seu tempo como empregado da Intel superestimam e alteram seu cargo e responsabilidades. Ele não é COO da Intel Corporation e nunca ocupou esse cargo.”
Não se trata de um exagero menor. Afirmar ser COO de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, quando não se é, levanta questões serias sobre credibilidade.
RT-One: multinacional sem data centers
A RT-One se apresenta como uma “multinacional” de tecnologia. Mas, segundo a apuração do Aos Fatos, não foi identificado nenhum data center da empresa em outro país. No site oficial, constam apenas os dois empreendimentos brasileiros — Uberlândia e Maringá — que ainda estão em construção.
A empresa foi registrada em dezembro de 2024 em São Paulo, na Vila Ipojuca. No mesmo endereco, funcionava até 2021 uma empresa de importação de eletrônicos chamada Gamernuc. Palamone também era sócio-administrador da Gamernuc.
Isso não significa que a RT-One seja incapaz de executar o projeto. Mas contradiz a narrativa de “multinacional consolidada” que a Prefeitura e a FIEMG ajudaram a propagar.
MPF abre inquérito em Uberlândia
A reportagem do Aos Fatos também revelou que o Ministério Público Federal instaurou um inquérito civil para apurar possíveis danos ambientais do projeto em Uberlândia.
O procurador destacou que, segundo informações divulgadas na imprensa, o centro consumiria energia equivalente a 1,6 milhão de casas. O inquérito solicitou informações sobre consumo de água e energia.
Nos documentos obtidos pelo Aos Fatos, não há registro de resposta da RT-One ao MPF.
A única empresa que respondeu foi a Cemig, que afirmou que o sistema elétrico regional “apresenta condições técnicas adequadas para absorver a carga adicional solicitada”. Mas a Cemig também disse que o impacto em nível nacional não é de sua responsabilidade.
Outros projetos sob investigação
A reportagem do Aos Fatos não se limitou a Uberlândia. Ela analisou quatro projetos de data centers no Brasil:
Caucaia (CE) — TikTok
O data center do TikTok, antes capitaneado pela Casa dos Ventos e agora gerido pelo Patria Investimentos, enfrenta investigação por estar sendo instalado em terras tradicionais dos Índios Anacés.
O MPF realizou perícia técnica que considerou o licenciamento ambiental “inadequado, insuficiente e inadmissível”. A Funai solicitou a suspensão da licença.
Maringá (PR) — RT-One
O mesmo projeto da RT-One em Maringá admitiu a possibilidade de tirar água do subsolo para resfriar o data center. O MPF também investiga.
Eldorado do Sul (RS) — Scala
O MPF oficiou os órgãos responsaveis. A Scala informou que o projeto ainda estava em fase de planejamento e não havia licenciamentos. Mesmo assim, a Câmara Municipal aprovou uma lei que facilita o licenciamento de data centers no município — antes de qualquer estudo ambiental.
Promessas de emprego infladas
A reportagem do Aos Fatos também questiona as promessas de emprego. A RT-One chegou a afirmar que seus data centers iriam empregar de 20 a 30 pessoas por megawatt.
O Aos Fatos destacou que esse número “supera, e muito, a média observada desses empreendimentos”. O benchmark internacional é de aproximadamente 1 emprego por MW.
Se a RT-One cumprisse a promessa de 20-30 empregos/MW, seus 100 MW gerariam entre 2.000 e 3.000 empregos diretos. Nenhum data center no mundo opera com essa proporção.
Para aprofundar, leia: Data center gera empregos? O que os números revelam.
60% do investimento vai para equipamentos importados
Outro ponto levantado pelo Aos Fatos: grande parte do investimento bilionário não fica no município. Estima-se que cerca de 60% do valor e gasto com equipamentos que alimentam o centro — majoritariamente importados.
Além disso, alguns projetos serão instalados em Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs), com isenção de impostos. Isso significa que a produção do data center não será destinada a cidade nem ao Brasil.
A tentativa de censurar a reportagem
Após a publicação da matéria, a RT-One entrou na Justiça para derrubar a reportagem do Aos Fatos. O pedido foi negado.
A vereadora de Uberlândia Amanda Gondim (PSOL) divulgou a informação em suas redes sociais em 18 de maio de 2026:
“A RT-One tentou, e não conseguiu, derrubar a reportagem do jornal Aos Fatos que revela denúncias graves sobre o mega Data Center de IA.”
A matéria permanece no ar. A tentativa de censura judicial fracassou.
O que a Prefeitura disse
Ao Aos Fatos, a RT-One disse que “não tem conhecimento” das alegações sobre a falsa parceria com a Intel e reafirmou que “a companhia atua com elevados padrões de integridade, transparência e responsabilidade corporativa”.
O CEO Fernando Palamone disse que “não comenta boatos sobre sua empresa”.
A Prefeitura de Uberlândia, a FIEMG e o governo do Paraná continuam apoiando o projeto.
O que Uberlândia deveria perguntar
Diante das revelações, a cidade tem o direito de exigir respostas:
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A Prefeitura sabia do processo movido pela Intel contra a RT-One? Se não sabia, por que não fez due diligence? Se sabia, por que não divulgou?
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Por que a RT-One não respondeu ao inquérito do MPF? Qual é o status atual da investigação?
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Os números de emprego são baseados em que metodologia? A promessa de 20-30 empregos/MW tem algum fundamento técnico?
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Qual é a estrutura societária real da RT-One? Quem são os investidores? De onde vem o capital?
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Por que a empresa tentou censurar uma reportagem jornalistica? Empresas com “elevados padrões de transparência” costumam responder a criticas, não tentar silenciá-las.
Conclusão: transparência é o mínimo
A investigação do Aos Fatos revelou fatos graves: falsificação de parceria, inflação de currículo, ausência de resposta ao MPF, promessas de emprego fora da realidade e tentativa de censura judicial.
Isso não significa que o data center não será construido. Significa que Uberlândia precisa de mais transparência antes de celebrar.
Um projeto de R$ 6 bilhões, com impacto sobre água, energia e território, não pode ser aprovado com base em confianca cega. A cidade deve exigir documentos, respostas e prestação de contas.
Se a RT-One é séria, ela deve responder às perguntas. Se não responder, a cidade deve perguntar por que.
Perguntas frequentes
A RT-One foi processada pela Intel?
Sim. Segundo o Aos Fatos, a Intel processou a RT-One em 2024 após a empresa ter falsamente representado a multinacional em um acordo com o governo do Distrito Federal. O CEO da RT-One, Fernando Palamone, teria se apresentado como COO e vice-presidente da Intel, cargo que nunca ocupou.
O CEO da RT-One mentiu sobre seu currículo?
A Intel confirmou ao Aos Fatos que as informações no LinkedIn de Fernando Palamone “superestimam e alteram seu cargo e responsabilidades”. Ele afirmou ter sido COO da Intel, mas a empresa negou que ele tenha ocupado esse cargo.
A RT-One tem data centers em outros países?
Segundo a apuração do Aos Fatos, não foi identificado nenhum data center da RT-One fora do Brasil. Os únicos projetos listados no site oficial são os de Uberlândia e Maringá, que ainda estão em construção.
O MPF está investigando o projeto de Uberlândia?
Sim. O Ministério Público Federal instaurou um inquérito civil para apurar possíveis danos ambientais. O procurador citou que o centro consumiria energia equivalente a 1,6 milhão de casas. Nos documentos obtidos pelo Aos Fatos, não há registro de resposta da RT-One.
A RT-One tentou censurar a reportagem do Aos Fatos?
Sim. A RT-One entrou na Justiça para derrubar a matéria, mas não conseguiu. A reportagem permanece publicada. A informação foi divulgada pela vereadora Amanda Gondim (PSOL) em maio de 2026.
Por que isso importa para Uberlândia?
Porque a cidade está prestes a receber um empreendimento de R$ 6 bilhões que vai consumir água, energia e território. As revelações sobre falsificação de parceria, currículo inflado e promessas de emprego fora da realidade levantam questões sobre a credibilidade da empresa responsável.