O que consome agua em um data center
Data centers nao sao apenas consumidores de eletricidade. O resfriamento dos servidores — que operam 24 horas por dia e geram calor constante — e o principal destino da agua nesses empreendimentos. Um data center de medio porte pode consumir, so em refrigeracao, o equivalente ao abastecimento de milhares de residencias.
Os tres principais usos de agua dentro de um data center sao:
Resfriamento (70% a 95% do total). Servidores dissipam calor continuamente. Sem um sistema de refrigeracao, a temperatura interna ultrapassaria 60°C em minutos, destruindo equipamentos. A agua remove esse calor por evaporacao (circuito aberto) ou por troca termica em trocadores de calor (circuito fechado).
Umidificacao. Salas de servidores exigem umidade controlada (entre 40% e 60%). Ar seco demais gera eletricidade estatica e danifica componentes; ar umido demais causa condensacao e corrosao. Sistemas de umidificacao consomem agua para manter esse equilibrio.
Geracao de energia (indireto). Se a energia que abastece o data center vem de usinas termoeletricas ou hidreletricas com reservatorios de evaporacao, ha um consumo hidrico indireto que raramente aparece nas metricas publicas do operador.
No projeto da RT-One em Uberlandia, a empresa declarou consumo de 2,77 litros por segundo (L/s) de agua potavel — aproximadamente 239 mil litros por dia ou 87 milhoes de litros por ano. Para dimensionar: isso equivale ao consumo diario de agua de cerca de 1.600 pessoas, considerando a media brasileira de 150 litros por habitante por dia.
Mas 2,77 L/s e muito ou pouco? A resposta depende de tres fatores: a tecnologia de resfriamento usada, a metrica de eficiencia (WUE) e a disponibilidade hidrica da regiao.
Circuito aberto vs. circuito fechado: a tecnologia define o volume
A arquitetura do sistema de resfriamento e o fator que mais afeta o consumo de agua. Existem dois modelos principais:
Circuito aberto (cooling towers)
Agua circula por torres de resfriamento, onde parte evapora para dissipar calor. O restante retorna ao sistema, mas uma fracao precisa ser continuamente reposta — a chamada “purga” (blowdown), que remove sais concentrados.
- Consumo tipico: 2 a 4 L/kWh de TI
- Vantagem: energeticamente eficiente; o PUE costuma ser mais baixo
- Desvantagem: alto consumo hidrico; depende de fonte continua de agua
- Comum em: regioes de clima seco e quente, como Arizona (EUA) e India
Data centers que usam circuito aberto em regioes aridas podem consumir ate 20 milhoes de litros por dia em instalacoes de grande porte (acima de 100 MW).
Circuito fechado (chillers + dry coolers)
Agua circula em loop selado, trocando calor com o ambiente via trocadores de calor (ar ou refrigerante). Nao ha evaporacao no processo principal. A perda de agua e minima — apenas a reposicao de eventuais vazamentos.
- Consumo tipico: 0,2 a 0,8 L/kWh de TI
- Vantagem: consumo hidrico drasticamente menor
- Desvantagem: maior consumo energetico; o PUE costuma ser mais alto
- Comum em: regioes com escassez hidrica ou restricoes ambientais
Modelos hibridos e free cooling
Muitos data centers modernos usam sistemas adiabaticos ou “free cooling”: quando a temperatura externa esta baixa, o ar ambiente resfria os servidores diretamente, e a agua so entra em acao nos dias mais quentes. Isso reduz o consumo anual em 30% a 60% comparado a um sistema 100% evaporativo.
O caso de Uberlandia
A RT-One declara usar refrigeracao liquida em circuito fechado para seu projeto em Uberlandia. Isso colocaria o data center na faixa mais eficiente em termos hidricos. Porem, a empresa nao divulga seu WUE publicamente — o que impede comparacoes objetivas com outros data centers nacionais e internacionais.
Uberlandia tem clima tropical de savana (Aw na classificacao de Koppen), com temperaturas medias entre 18°C e 32°C e estacao seca pronunciada de maio a setembro. Isso significa que, durante os meses mais quentes e secos, a demanda por resfriamento e maxima — exatamente quando a disponibilidade hidrica e minima.
WUE: a metrica que mede eficiencia hidrica
WUE (Water Usage Effectiveness) e a principal metrica para comparar o consumo de agua entre data centers. Criada pelo consorcio The Green Grid em 2011, ela mede quantos litros de agua sao consumidos para cada kWh de energia usada pelos equipamentos de TI.
WUE = Litros de agua consumidos / kWh de energia de TI
Interpretando o WUE
| Faixa de WUE | Classificacao | Exemplos |
|---|---|---|
| Acima de 3,0 L/kWh | Crítico | Torres de resfriamento antigas, climas quentes |
| 1,5 a 3,0 L/kWh | Medio | Circuito aberto com manutencao regular |
| 0,5 a 1,5 L/kWh | Bom | Circuito fechado ou free cooling |
| Abaixo de 0,5 L/kWh | Excelente | Reuso de agua, captacao de chuva, refrigeracao por imersao |
Grandes operadoras como Google e Microsoft reportam WUE medio de 0,25 a 1,0 L/kWh, dependendo da localizacao. Data centers na Europa e regioes frias tendem a valores mais baixos; no Oriente Medio e sudeste asiatico, os valores disparam.
A limitacao do WUE
Especialistas da UFU apontam que metricas como WUE e PUE sao relativas:
“Algo e ‘sustentavel’ em relacao a algum parametro de referencia, por exemplo uma tecnologia mais antiga e com menor eficiencia. Entretanto, isso nao significa que nao exista impacto.” — Lourenco Galvao Diniz Faria, economista pela UFU
Um data center com WUE de 1,0 L/kWh em uma regiao com escassez hidrica pode ser mais problematico do que um com WUE de 3,0 L/kWh em uma regiao com agua abundante. O WUE mede eficiencia, nao impacto absoluto.
Estimativa para o projeto de Uberlandia
Sem o WUE oficial da RT-One, podemos fazer uma estimativa conservadora. Considerando:
- Consumo declarado: 2,77 L/s continuos = 239.328 L/dia
- Carga de TI estimada (com base no PUE <1,2 declarado e porte do projeto): aproximadamente 10 a 15 MW
WUE estimado: entre 0,66 e 1,0 L/kWh — dentro da faixa “bom” para refrigeracao liquida em circuito fechado, mas longe do “excelente” que tecnologias como reuso de agua ou free cooling total permitiriam.
Os numeros de Uberlandia: o que o DMAE entrega e o que o data center demanda
Uberlandia e abastecida pelo DMAE (Departamento Municipal de Agua e Esgoto) por meio de tres Estacoes de Tratamento de Agua (ETAs):
- ETA Capim Branco — a mais nova, inaugurada em 2021 com capacidade de 2.000 L/s (ampliavel ate 6.000 L/s)
- ETA Sucupira — uma das duas mais antigas
- ETA Bom Jardim — opera junto com Sucupira desde decadas atras
Juntas, as tres ETAs tem capacidade para abastecer ate 1,5 milhao de habitantes — Uberlandia tem cerca de 700 mil. Ou seja, a infraestrutura atual comporta o dobro da populacao. A rede de distribuicao tem mais de 3.200 km e o DMAE coleta e analisa mais de 18 mil amostras de agua por ano.
A agua de Uberlandia vem da Bacia do Rio Araguari, cujo principal reservatorio e a represa de Capim Branco. O investimento total no sistema Capim Branco foi de R$ 332 milhoes.
O data center no contexto do abastecimento
O consumo declarado de 2,77 L/s representa 0,14% da capacidade da ETA Capim Branco e uma fracao ainda menor da capacidade total do municipio. Em termos absolutos, a demanda parece modesta.
Mas esse numero engana por tres motivos:
-
Sazonalidade. O consumo do data center e constante (24/7/365), enquanto a disponibilidade hidrica oscila. Na estacao seca (maio a setembro), o Rio Araguari tem vazoes reduzidas, e a demanda por agua para abastecimento humano, agricultura e industria compete com o data center.
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Crescimento acumulativo. Uberlandia atrai multiplos data centers. Se tres projetos de porte similar se instalarem, o consumo salta para mais de 8 L/s — o equivalente a quase 5.000 pessoas adicionais no sistema.
-
Agua potavel vs. agua de reuso. O projeto da RT-One declara uso de agua potavel fornecida pelo DMAE — a mesma agua que abastece residencias, hospitais e escolas. Data centers em regioes com governanca hidrica madura (como Singapura e partes da Europa) usam agua de reuso ou agua nao potavel, reservando a agua tratada para consumo humano.
Seca e data center: o risco que Uberlandia ja conhece
O Triangulo Mineiro nao e estranho a crises hidricas. A ETA Capim Branco foi inaugurada, segundo o proprio DMAE, “no momento em que se aponta para a pior crise hidrica em mais de 100 anos no Pais”. O projeto da captacao comecou a ser pensado ainda na decada de 1990, justamente porque os sistemas Sucupira e Bom Jardim ja mostravam sinais de saturacao.
Em periodos de seca severa, tres cenarios se sobrepoem:
Cenario 1 — Concorrencia por agua potavel. Se o DMAE precisar racionar agua, o data center continuara consumindo 239 mil litros por dia. A pergunta inevitavel e: quem tem prioridade — o data center ou a populacao?
Cenario 2 — Reducao da eficiencia do resfriamento. Com temperaturas mais altas e baixa umidade, sistemas de refrigeracao que dependem de troca termica com o ar ambiente perdem eficiencia. Consumo de agua e energia aumentam simultaneamente — exatamente quando ambos estao mais escassos.
Cenario 3 — Risco regulatorio e de outorga. A outorga de uso de agua no Brasil e concedida pelo orgao estadual (em MG, o IGAM). Em situacao de escassez critica, outorgas podem ser suspensas ou reduzidas — o que colocaria a operacao do data center em risco.
A UNEP (United Nations Environment Programme), em seu relatorio Global Cooling Watch 2023, alerta que o resfriamento de data centers e uma das categorias de consumo hidrico que mais cresce globalmente e recomenda que governos locais estabelecam limites de WUE como condicao para licenciamento ambiental — algo que ainda nao existe na legislacao mineira.
Perguntas para cobrar de operadores de data centers
Se um data center se instala na sua cidade — ou se voce e gestor publico, jornalista ou cidadao que quer entender o impacto real — estas sao as perguntas que precisam ser respondidas:
Sobre agua
- Qual o WUE do projeto? A metrica deve ser publica, auditavel e comparavel com benchmarks de mercado.
- A agua e potavel ou de reuso? Se for potavel, qual a justificativa para nao usar agua nao potavel?
- Qual a fonte da agua? Rio, aquifero, concessionaria municipal? Qual o impacto na bacia hidrografica local?
- Qual o consumo na estacao seca vs. estacao chuvosa? A demanda e constante ou sazonal?
- Ha captacao propria ou depende exclusivamente do sistema publico? Se houver poco proprio, qual a profundidade e ha risco para aquiferos como o Guarani?
Sobre tecnologia
- Circuito aberto ou fechado? Se for circuito aberto, qual a vazao de purga e para onde vai o efluente?
- Ha sistema de free cooling? Em que porcentagem do ano ele opera sem consumo de agua?
- Qual o plano de contingencia para seca? Existe armazenamento proprio? Ha acordo com a concessionaria para reducao de consumo em emergencia?
Sobre transparencia
- O WUE e o consumo hidrico sao reportados publicamente em tempo real? Se nao, por que?
- O Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) inclui modelagem hidrica com cenarios de seca? O estudo considera os efeitos cumulativos se multiplos data centers operarem na mesma bacia?
A agua e um recurso finito que nao se resolve com metricas de eficiencia relativa. Um data center pode ter WUE baixo e ainda assim impor risco hidrico real — especialmente em regioes onde a disponibilidade de agua ja e tensionada, como o Triangulo Mineiro durante a estacao seca.
Em Uberlandia, o DMAE construiu infraestrutura robusta, mas o cenario muda quando se considera que um unico data center e so o primeiro de varios, que agua potavel e diferente de agua disponivel e que seca nao e “se”, e “quando”.
Cobrar transparencia hidrica de operadores de data centers nao e ativismo — e gestao de risco.