MW virou manchete, mas pouca gente sabe o que significa
Quando a RT-One anunciou um data center de inteligência artificial em Uberlândia (MG) com investimento de R$ 6 bilhões, os números de energia apareceram nas manchetes: 100 MW iniciais, com potencial de expansão para 400 MW. Para quem está acostumado a pensar em energia em termos de conta de luz residencial, esses números parecem absurdos.
Não são. São outra categoria de grandeza.
Este artigo explica o que esses valores significam na prática, por que a avaliação precisa ir além do número bruto, e quais perguntas Cemig, ONS e a própria cidade precisam responder antes que o projeto opere em escala.
Nota de precisão: A reportagem original da Mobile Time (fev/2026) cita “100 kW” e “400 kW” na fala do secretário municipal. Contudo, o contexto de um data center de IA de R$ 6 bilhões com subestação dedicada da Cemig indica que a unidade correta é megawatts (MW), não quilowatts (kW). 100 kW seria o consumo de uma casa grande. 100 MW é uma operação industrial de grande porte. Este artigo usa MW, que é a escala coerente com o projeto descrito.
MW em linguagem simples
Um megawatt (MW) equivale a 1.000 quilowatts (kW) ou 1 milhão de watts. Para colocar em perspectiva:
| Referência | Consumo aproximado |
|---|---|
| Residência brasileira média | 0,2 kW a 0,5 kW de demanda contínua |
| Condomínio de 200 apartamentos | ~1 MW de pico |
| Supermercado grande | 0,3 MW a 0,8 MW |
| Fábrica de médio porte | 5 MW a 30 MW |
| Data center de IA (fase 1) | 100 MW |
| Data center de IA (fase final) | 400 MW |
100 MW sustentados equivalem a demanda contínua de aproximadamente 200.000 a 500.000 residências, dependendo da região e do perfil de consumo. Não é consumo doméstico. É carga industrial de grande porte, comparável a uma siderúrgica ou refinaria.
A diferença fundamental: uma residência tem pico de consumo durante algumas horas do dia. Um data center de IA consome no mesmo nível, 24 horas por dia, 365 dias por ano.
Carga 24/7: o que muda quando a fábrica não desliga
Data centers de IA têm um perfil de consumo que a maioria das cidades nunca viu:
- Fator de carga próximo de 1,0 — consomem praticamente a mesma potência a todo momento, sem os vales noturnos que caracterizam o consumo residencial.
- Crescimento exponencial com GPUs — racks de IA moderna (H100, B200, e sucessores) consomem de 40 kW a 120 kW por rack, contra 5 kW a 10 kW de um rack de servidores convencional.
- Refrigeração e parte do problema — sistemas de resfriamento líquido e climatização representam 20% a 40% do consumo total (PUE entre 1,2 e 1,4 em projetos modernos).
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo global de energia de data centers mais que dobrou entre 2022 e 2024, impulsionado principalmente por cargas de treinamento e inferência de IA. A projeção é que continue crescendo a dois dígitos anuais até 2030.
Um data center de 400 MW consome aproximadamente 3,5 TWh por ano (400 MW x 24h x 365 dias x 0,9 de fator de disponibilidade). Isso coloca a operação na faixa de consumo de cidades medias brasileiras inteiras.
Subestação dedicada: por que não basta “ligar na tomada”
A Mobile Time reportou que a RT-One está em negociação final com a Cemig para instalar uma subestação dedicada ao data center. Isso não é luxo. É necessidade técnica.
O que uma subestação faz
Uma subestação transforma a tensão da rede de transmissão (tipicamente 138 kV, 230 kV ou 500 kV) para a tensão de distribuição que o data center utiliza internamente (13,8 kV ou 34,5 kV). Para um projeto de 100-400 MW, a subestação precisa:
- Receber alimentação em alta tensão diretamente da rede de transmissão, não da rede de distribuição urbana.
- Manter estabilidade de frequência e tensão sob carga constante e pesada.
- Prover redundância — tipicamente duas ou mais linhas de alimentação independentes.
- Integrar proteção e automação para desligamentos controlados em caso de falha.
Por que a rede da cidade não suporta
A rede de distribuição que abastece Uberlândia foi dimensionada para consumo residencial, comercial e industrial convencional. Injetar 100 MW de carga contínua nessa rede sem infraestrutura dedicada causaria:
- Quedas de tensão para consumidores vizinhos
- Sobrecarga em transformadores de distribuição
- Risco de desligamentos em cascata
A subestação dedicada isola o impacto do data center na rede urbana. O secretário Fabiano Alves foi claro: “o data center não consumirá a mesma energia que é enviada a cidade.”
Energia renovável: a conexão com Itaipu e o portfólio energético
A RT-One tem experiência com projetos de data center alimentados por energia limpa. Em Maringá (PR), a empresa se posicionou diretamente sob a linha de transmissão Itaipu-Sarandi, recebendo energia da Usina Hidrelétrica de Itaipu Binacional.
Para Uberlândia, o CEO Fernando Palamone indicou que a estratégia energética inclui:
- Contratos com fontes renováveis no mercado livre de energia (ACL)
- Composição de portfólio com diferentes origens (hidrelétrica, solar, eólica)
- Geração solar fotovoltaica no próprio terreno do data center
- Sistema elétrico nacional interligado (SIN) como garantia de redundância
O Brasil tem vantagem competitiva aqui. A matriz elétrica brasileira é uma das mais renováveis do mundo, com mais de 80% da geração vinda de fontes renováveis (principalmente hidrelétrica, complementada por eólica e solar).
Mas há um ponto importante: renovável não significa disponível 24/7. Solar gera de dia, eólica depende do vento. Data centers precisam de garantia de fornecimento contínuo. É aí que entram os contratos de longo prazo (PPAs), a complementação hidrelétrica e o SIN como backup.
Riscos para a rede: o que pode dar errado
Mesmo com subestação dedicada e contratos renováveis, a chegada de um data center de 100-400 MW traz riscos que precisam ser gerenciados:
1. Competição por capacidade de transmissão
A rede de transmissão na região de Uberlândia tem capacidade finita. Um projeto de 400 MW pode consumir uma parcela significativa da capacidade disponível, limitando a chegada de outras industrias.
2. Impacto no planejamento do ONS
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) precisa incorporar essa carga no planejamento energético nacional. Uma carga industrial contínua dessa magnitude afeta:
- Despacho de usinas (quais ligar/desligar e quando)
- Margem de reserva do sistema
- Planejamento de expansão da transmissão
3. Água de resfriamento
O DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgoto de Uberlândia) já aprovou o uso de água pelo data center, que utilizará um sistema de resfriamento em circuito fechado. O consumo será similar ao de uma indústria pequena. Mas em períodos de seca, a competição por recursos hídricos precisa ser monitorada.
4. Efeito de escala
Se Uberlândia atrair mais data centers (como espera a prefeitura), o impacto cumulativo na infraestrutura energética da região precisa ser planejado com antecedência, não reativamente.
Perguntas para Cemig, ONS e Prefeitura
Qualquer avaliação séria do impacto energético de data centers em Uberlândia precisa responder a estas perguntas:
Para a Cemig
- Qual é a capacidade atual da rede de transmissão na região oeste de Uberlândia?
- A subestação dedicada terá alimentação redundante de duas linhas independentes?
- Qual será o impacto na tarifa de energia dos demais consumidores da região?
- Existe plano de expansão da rede para acomodar futuros data centers?
Para o ONS
- Como a carga de 100-400 MW será incorporada ao despacho energético?
- Qual o impacto na margem de reserva do sistema interligado?
- Há necessidade de nova infraestrutura de transmissão para suportar a carga?
Para a Prefeitura de Uberlândia
- Qual é o limite de carga elétrica que a cidade pode suportar sem comprometer o abastecimento residencial?
- Existe um plano diretor energético que considere a chegada de múltiplas operações de grande porte?
- Como os benefícios fiscais e empregos gerados se comparam ao custo de infraestrutura necessaria?
- Qual é o plano de monitoramento ambiental e energético contínuo?
Conclusão: o número é o início da conversa, não o fim
100 MW e 400 MW não são números para comparar com a conta de luz de casa. São indicadores de uma operação industrial de grande porte que vai operar continuamente, consumir recursos de transmissão dedicados, e exigir coordenação entre concessionária, operador nacional e município.
A boa notícia: o Brasil tem matriz renovável, sistema interligado e experiência em operação de grandes cargas industriais. A RT-One já demonstrou competência técnica com seu projeto em Maringá. A prefeitura de Uberlândia parece estar envolvida no processo de aprovação com critério.
A pergunta que fica é de escala: Uberlândia quer ser um hub de data centers? Se sim, o planejamento energético precisa estar um passo à frente dos anúncios de investimento. Se não, os critérios de aprovação precisam ser claros desde o início.
O que não funciona é aprovar projeto a projeto sem visão sistêmica. A rede elétrica não escala no ritmo de um press release.
Fontes e leituras adicionais
- Mobile Time — “Data center de IA da RT-One em Uberlândia terá subestação da Cemig” (fev/2026)
- Mobile Time — “Data center de IA da RT-One se beneficiará de linha de transmissão de Itaipu” (abr/2025)
- IT Forum — “RT-One anuncia data center de IA de R$ 6 bilhões em Uberlândia” (set/2025)
- IEA — “Data Centres and Data Transmission Networks” (2024)
- Prefeitura de Uberlândia — Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Inovação