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Consumo de energia de data centers: o que significam 100 MW e 400 MW em Uberlândia

100 MW e 400 MW indicam carga elétrica industrial contínua, não consumo doméstico comum; por isso a avaliação deve incluir subestação, rede, fonte contratada e impacto sistêmico.

8 min read infraestrutura data-center uberlandia energia cemig ons

MW virou manchete, mas pouca gente sabe o que significa

Quando a RT-One anunciou um data center de inteligência artificial em Uberlândia (MG) com investimento de R$ 6 bilhões, os números de energia apareceram nas manchetes: 100 MW iniciais, com potencial de expansão para 400 MW. Para quem está acostumado a pensar em energia em termos de conta de luz residencial, esses números parecem absurdos.

Não são. São outra categoria de grandeza.

Este artigo explica o que esses valores significam na prática, por que a avaliação precisa ir além do número bruto, e quais perguntas Cemig, ONS e a própria cidade precisam responder antes que o projeto opere em escala.

Nota de precisão: A reportagem original da Mobile Time (fev/2026) cita “100 kW” e “400 kW” na fala do secretário municipal. Contudo, o contexto de um data center de IA de R$ 6 bilhões com subestação dedicada da Cemig indica que a unidade correta é megawatts (MW), não quilowatts (kW). 100 kW seria o consumo de uma casa grande. 100 MW é uma operação industrial de grande porte. Este artigo usa MW, que é a escala coerente com o projeto descrito.


MW em linguagem simples

Um megawatt (MW) equivale a 1.000 quilowatts (kW) ou 1 milhão de watts. Para colocar em perspectiva:

ReferênciaConsumo aproximado
Residência brasileira média0,2 kW a 0,5 kW de demanda contínua
Condomínio de 200 apartamentos~1 MW de pico
Supermercado grande0,3 MW a 0,8 MW
Fábrica de médio porte5 MW a 30 MW
Data center de IA (fase 1)100 MW
Data center de IA (fase final)400 MW

100 MW sustentados equivalem a demanda contínua de aproximadamente 200.000 a 500.000 residências, dependendo da região e do perfil de consumo. Não é consumo doméstico. É carga industrial de grande porte, comparável a uma siderúrgica ou refinaria.

A diferença fundamental: uma residência tem pico de consumo durante algumas horas do dia. Um data center de IA consome no mesmo nível, 24 horas por dia, 365 dias por ano.


Carga 24/7: o que muda quando a fábrica não desliga

Data centers de IA têm um perfil de consumo que a maioria das cidades nunca viu:

  • Fator de carga próximo de 1,0 — consomem praticamente a mesma potência a todo momento, sem os vales noturnos que caracterizam o consumo residencial.
  • Crescimento exponencial com GPUs — racks de IA moderna (H100, B200, e sucessores) consomem de 40 kW a 120 kW por rack, contra 5 kW a 10 kW de um rack de servidores convencional.
  • Refrigeração e parte do problema — sistemas de resfriamento líquido e climatização representam 20% a 40% do consumo total (PUE entre 1,2 e 1,4 em projetos modernos).

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo global de energia de data centers mais que dobrou entre 2022 e 2024, impulsionado principalmente por cargas de treinamento e inferência de IA. A projeção é que continue crescendo a dois dígitos anuais até 2030.

Um data center de 400 MW consome aproximadamente 3,5 TWh por ano (400 MW x 24h x 365 dias x 0,9 de fator de disponibilidade). Isso coloca a operação na faixa de consumo de cidades medias brasileiras inteiras.


Subestação dedicada: por que não basta “ligar na tomada”

A Mobile Time reportou que a RT-One está em negociação final com a Cemig para instalar uma subestação dedicada ao data center. Isso não é luxo. É necessidade técnica.

O que uma subestação faz

Uma subestação transforma a tensão da rede de transmissão (tipicamente 138 kV, 230 kV ou 500 kV) para a tensão de distribuição que o data center utiliza internamente (13,8 kV ou 34,5 kV). Para um projeto de 100-400 MW, a subestação precisa:

  1. Receber alimentação em alta tensão diretamente da rede de transmissão, não da rede de distribuição urbana.
  2. Manter estabilidade de frequência e tensão sob carga constante e pesada.
  3. Prover redundância — tipicamente duas ou mais linhas de alimentação independentes.
  4. Integrar proteção e automação para desligamentos controlados em caso de falha.

Por que a rede da cidade não suporta

A rede de distribuição que abastece Uberlândia foi dimensionada para consumo residencial, comercial e industrial convencional. Injetar 100 MW de carga contínua nessa rede sem infraestrutura dedicada causaria:

  • Quedas de tensão para consumidores vizinhos
  • Sobrecarga em transformadores de distribuição
  • Risco de desligamentos em cascata

A subestação dedicada isola o impacto do data center na rede urbana. O secretário Fabiano Alves foi claro: “o data center não consumirá a mesma energia que é enviada a cidade.”


Energia renovável: a conexão com Itaipu e o portfólio energético

A RT-One tem experiência com projetos de data center alimentados por energia limpa. Em Maringá (PR), a empresa se posicionou diretamente sob a linha de transmissão Itaipu-Sarandi, recebendo energia da Usina Hidrelétrica de Itaipu Binacional.

Para Uberlândia, o CEO Fernando Palamone indicou que a estratégia energética inclui:

  • Contratos com fontes renováveis no mercado livre de energia (ACL)
  • Composição de portfólio com diferentes origens (hidrelétrica, solar, eólica)
  • Geração solar fotovoltaica no próprio terreno do data center
  • Sistema elétrico nacional interligado (SIN) como garantia de redundância

O Brasil tem vantagem competitiva aqui. A matriz elétrica brasileira é uma das mais renováveis do mundo, com mais de 80% da geração vinda de fontes renováveis (principalmente hidrelétrica, complementada por eólica e solar).

Mas há um ponto importante: renovável não significa disponível 24/7. Solar gera de dia, eólica depende do vento. Data centers precisam de garantia de fornecimento contínuo. É aí que entram os contratos de longo prazo (PPAs), a complementação hidrelétrica e o SIN como backup.


Riscos para a rede: o que pode dar errado

Mesmo com subestação dedicada e contratos renováveis, a chegada de um data center de 100-400 MW traz riscos que precisam ser gerenciados:

1. Competição por capacidade de transmissão

A rede de transmissão na região de Uberlândia tem capacidade finita. Um projeto de 400 MW pode consumir uma parcela significativa da capacidade disponível, limitando a chegada de outras industrias.

2. Impacto no planejamento do ONS

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) precisa incorporar essa carga no planejamento energético nacional. Uma carga industrial contínua dessa magnitude afeta:

  • Despacho de usinas (quais ligar/desligar e quando)
  • Margem de reserva do sistema
  • Planejamento de expansão da transmissão

3. Água de resfriamento

O DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgoto de Uberlândia) já aprovou o uso de água pelo data center, que utilizará um sistema de resfriamento em circuito fechado. O consumo será similar ao de uma indústria pequena. Mas em períodos de seca, a competição por recursos hídricos precisa ser monitorada.

4. Efeito de escala

Se Uberlândia atrair mais data centers (como espera a prefeitura), o impacto cumulativo na infraestrutura energética da região precisa ser planejado com antecedência, não reativamente.


Perguntas para Cemig, ONS e Prefeitura

Qualquer avaliação séria do impacto energético de data centers em Uberlândia precisa responder a estas perguntas:

Para a Cemig

  1. Qual é a capacidade atual da rede de transmissão na região oeste de Uberlândia?
  2. A subestação dedicada terá alimentação redundante de duas linhas independentes?
  3. Qual será o impacto na tarifa de energia dos demais consumidores da região?
  4. Existe plano de expansão da rede para acomodar futuros data centers?

Para o ONS

  1. Como a carga de 100-400 MW será incorporada ao despacho energético?
  2. Qual o impacto na margem de reserva do sistema interligado?
  3. Há necessidade de nova infraestrutura de transmissão para suportar a carga?

Para a Prefeitura de Uberlândia

  1. Qual é o limite de carga elétrica que a cidade pode suportar sem comprometer o abastecimento residencial?
  2. Existe um plano diretor energético que considere a chegada de múltiplas operações de grande porte?
  3. Como os benefícios fiscais e empregos gerados se comparam ao custo de infraestrutura necessaria?
  4. Qual é o plano de monitoramento ambiental e energético contínuo?

Conclusão: o número é o início da conversa, não o fim

100 MW e 400 MW não são números para comparar com a conta de luz de casa. São indicadores de uma operação industrial de grande porte que vai operar continuamente, consumir recursos de transmissão dedicados, e exigir coordenação entre concessionária, operador nacional e município.

A boa notícia: o Brasil tem matriz renovável, sistema interligado e experiência em operação de grandes cargas industriais. A RT-One já demonstrou competência técnica com seu projeto em Maringá. A prefeitura de Uberlândia parece estar envolvida no processo de aprovação com critério.

A pergunta que fica é de escala: Uberlândia quer ser um hub de data centers? Se sim, o planejamento energético precisa estar um passo à frente dos anúncios de investimento. Se não, os critérios de aprovação precisam ser claros desde o início.

O que não funciona é aprovar projeto a projeto sem visão sistêmica. A rede elétrica não escala no ritmo de um press release.


Fontes e leituras adicionais

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).