A advertência que ninguém está ouvindo
Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, de Minas Gerais e do Instituto Humanitas Unisinos fizeram, em 2025 e 2026, apelos públicos claros: data centers representam ameaça existencial à disponibilidade de água e energia no Brasil.
Não é especulação. É análise científica baseada em dados: crescimento exponencial de demanda, territórios com oferta hídrica limitada, matrizes energéticas já pressionadas, ausência de regulação federal coerente.
A resposta do Brasil? Criar o Redata — Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter — oferecendo 5 anos de isenção fiscal e desburocratização para atrair investimento privado estrangeiro.
Em outras palavras: o país reconhece a ameaça e reage oferecendo incentivos.
O silêncio dos reguladores
O PL 278/2026, que criou o Redata, avançou sem debate público profundo sobre impactos ambientais. Não há avaliação estratégica de onde data centers podem se instalar. Não há limite agregado de consumo hídrico por bacia. Não há mecanismo de cobrança pelos impactos negativos.
Em Uberlândia, o projeto da RT-One tramita há mais de um ano sem licença ambiental completa. Faltam EIA (Estudo de Impacto Ambiental) e RIMA (Relatório de Impacto Ambiental). A audiência pública foi em março, sem assinatura do prefeito.
Quando um projeto desta magnitude avança sem instrumentos básicos de governança ambiental, significa que alguém deliberadamente evitou criar transparência.
Data centers e mudanças climáticas: o elo escondido
Ninguém fala disso, mas está aqui: um data center consome eletricidade 24/7. Sua demanda é inelástica — não pode variar com disponibilidade de chuva ou vento.
Isso significa que, quando energia renovável não está disponível (à noite, em dias sem vento), a demanda recai sobre geração térmica — carvão, gás natural, diesel. Geradores, inclusive — a RT-One já prevê geradores diesel como backup.
No Brasil, onde a matriz é majoritariamente renovável, o impacto climático é indireto mas real: força investimento em térmica, acelera emissões (especialmente via geradores diesel durante falta de disponibilidade), aumenta pressão sobre hidrelétricas que, por sua vez, impactam clima via metano de reservatórios.
É um ciclo. Data centers não são “neutros” em carbono só porque usam energia de rede.
Quanto custa um planeta “acelerado ao esgotamento”?
A análise do IHU foi clara: data centers de IA estão acelerando o consumo de recursos planetários (água, energia, terra, minerais para construção) em ritmo insustentável.
Mas ninguém sabe exatamente quanto custa esse risco. Não porque seja incalculável, mas porque não há metodologia aceita para precificar risco ambiental sistêmico em contas públicas.
Então: uma empresa investe R$ 6 bilhões, recebe isenção de impostos federais, aprova consumo hídrico sem estudo de impacto agregado, constrói com mão de obra terceirizada, extrai lucro e remete dividendos para sedes internacionais. Uberlândia fica com: 80 empregos permanentes, conta de água mais cara, pressão sobre aquíferos, risco de racionamento.
Quem ganhou? Quem perdeu?
A lógica perversa da isenção
O Redata foi criado com lógica de “atração de investimento”: se você der isenção, a empresa vem. Se vier, gera empregos e reputação.
Mas essa lógica ignora que:
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Impactos ambientais não são internalizados. A empresa não paga pelo consumo hídrico além da conta de água. Não paga pelos riscos climáticos indiretos. O custo é socializado.
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Empregos não compensam impacto. A RT-One promete 80–100 permanentes em uma cidade de 700 mil habitantes. Não é insignificante, mas é desproporcional ao risco assumido pela região.
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Isenção de 5 anos é breve. O data center operará por décadas. Após 5 anos, começará a pagar impostos, mas o impacto hídrico e energético será permanente.
O que Uberlândia não perguntou
Nenhuma autoridade municipal respondeu publicamente:
- Qual é a carga hídrica agregada aceitável para o Triângulo Mineiro antes de colapso?
- Como será gerido o pico de demanda energética se Cemig não conseguir abastecê-lo?
- Qual o plano B se a RT-One expandir e consumir 2 milhões de litros diários durante seca?
- Como será compensado o impacto sobre ecossistemas do Cerrado se não houver regulação ex-post?
Essas perguntas não foram feitas oficialmente. A aprovação foi silenciosa, por cansaço administrativo ou fé no mercado.
A visão alternativa que não é debatida
Pesquisadores de universidades federais mineiras propõem:
- Moratorium em novos data centers até regulação específica por bacia hidrográfica.
- Cobrança de taxa ambiental sobre consumo hídrico acima de limiar.
- Estudo estratégico de atratividade: onde data centers podem estar sem comprometer suprimento essencial?
- Exigência de marco normativo federal que uniforme avaliações.
Nenhuma dessas propostas virou lei. Nenhuma foi debatida em Uberlândia.
A ironia final
O Brasil quer ser liderança em inteligência artificial. Data centers são infraestrutura necessária. Mas uma liderança construída sobre impactos ambientais não contabilizados é liderança que falha.
Se Brasil quer ser referência em IA sustentável, precisa de regulação que a torne possível. Ao invés, oferece isenção e silêncio.
Uberlândia paga a conta.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos, Comunica UFU
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