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Brasil atinge 1 GW de data centers em 2026 — e Uberlândia financia com água

País celebra marco de infraestrutura de IA enquanto cidades como Uberlândia arcam com déficit hídrico e ausência de licenciamento. O hub verde tem custo que ninguém publiciza.

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Brasil celebra 1 GW de data centers enquanto Uberlândia negocia em limbo

O Brasil alcançou um novo marco: 1 gigawatt de capacidade de data center comissionada no primeiro trimestre de 2026. A notícia foi celebrada em comunicados de associações do setor como prova de liderança, competitividade, energia renovável abundante. Tudo muito lindo no papel. Tudo muito distante da realidade de quem vive no Triângulo Mineiro.

Enquanto a mídia nacional aplaude a chegada do “hub verde de IA”, Uberlândia negocia um projeto de R$ 6 bilhões sem licença ambiental consolidada, sem contrato público, sem EIA/RIMA, e com a prefeitura omitindo informações básicas sobre o acordo com a RT-One.


O mito da energia renovável

Segundo o discurso oficial — repetido pela ABDC, pelo setor, e pelos comunicados otimistas — o Brasil atrai data centers porque possui “energia barata” e “renovável”. O país é, de fato, o terceiro maior produtor de energia renovável do mundo, atrás apenas de China e EUA. Nenhuma mentira aqui.

A mentira está na omissão. Energia renovável no Brasil é concentrada. A maioria está no Sudeste (hidrelétricas de São Paulo, Paraná) e no Sul (eólica). Minas Gerais, especialmente a região do Triângulo Mineiro, não possui fontes renováveis em escala comparável. O data center RT-One será alimentado por uma subestação dedicada da Cemig, que distribui energia gerada a centenas de quilômetros — e essas linhas de transmissão têm capacidade finita.

Como documentado neste blog, a Cemig investirá R$ 160 milhões em infraestrutura para suprir apenas os 100 MW iniciais do RT-One. Quem paga esse investimento? A sociedade, via tarifa. Uberlândia terá que absorver esse custo enquanto lucra localmente apenas com isenção fiscal de 5 anos.


O regime Redata desapareceu — e ninguém comentou

O marco de 1 GW brasileiro não foi por acaso. Muito foi construído sob o regime Redata, criado em setembro de 2025 para oferecer suspensão de PIS, Cofins, IPI e impostos de importação para componentes de data center não fabricados no Brasil. Uma generosidade fiscal.

Mas em fevereiro de 2026, apenas 5 meses depois, o regime Redata perdeu validade. Não foi convertido em lei. Simplesmente caducou. Os comunicados que celebram o 1 GW de capacidade em Q1 2026 não mencionam esse detalhe.

Para Uberlândia, significa que o contrato de isenção fiscal de 5 anos do RT-One — assinado sob o regime Redata — fica em terreno instável. A prefeitura nunca publicou os termos do acordo. Nunca explicou ao cidadão qual será a receita líquida após isenções. Fato é: em fevereiro, o incentivo federal que justificava muita coisa desapareceu do radar político nacional.


O custo verdadeiro está em água, não em energia

O Brasil é celebrado como hub de data centers porque tem energia. Uberlândia está sendo escolhida para um data center de 400 MW porque tem água — 239 mil litros por dia, aprovados pelo DMAE para o RT-One.

Mas o Brasil e Uberlândia estão em crise hídrica. As mesmas secas que forçam rodízios de energia afetam o abastecimento de água. A Cemig, que fará o investimento de R$ 160 milhões na subestação para o RT-One, é também responsável por várias hidrelétricas que formam o suprimento hídrico da região.

O marco de 1 GW de data centers significa que o Brasil está apostando em infraestrutura que consome água — muita água — durante uma crise permanente. Uberlândia, como parte dessa aposta, será um sacrificador: fornecerá água em volume, receberá em troca isenção fiscal limitada, e arcará com o risco de crise hídrica crônica quando (não se) o RT-One entrar em operação.


A tabela que ninguém mostra

AspectoDiscurso oficialRealidade em Uberlândia
Energia renovável”Hub verde, competitivo globalmente”Subestação Cemig investindo R$ 160M; custo transferido para tarifa
Isenção fiscal”Regime Redata atrai investimento”Caducado em fevereiro; acordo com RT-One nunca publicado
Água”Infraestrutura de ponta, eficiência hídrica”239 mil L/dia em região de crise; sem EIA/RIMA que avalie impacto real
Emprego”Gerador de oportunidades”Menos de 100 permanentes; maioria mão de obra terceirizada
Licenciamento”Marcos atingidos: 1 GW em Q1 2026”Uberlândia: sem LP, sem LI, sem LO consolidadas; processo em limbo

Quem vende e quem paga

O setor de data centers brasileiro — ABDC, hiperscalers, grandes fornecedores — vende uma história. Uma história verdadeira sobre energia renovável, sobre liderança em IA, sobre oportunidade. Essa história chega aos jornais nacionais, aos investidores, aos fundos.

Uberlândia é parte dessa história. Mas é a parte que paga. A água que será consumida é sua. O custo da subestação que vai na sua tarifa é seu. O déficit de licenciamento ambiental que fica pendente é seu. A população de Pequis e Monte Hebrom que fica exposta a ruído, calor e riscos é sua.

Enquanto Brasil comemora 1 GW em comunicados de imprensa, Uberlândia continua sem saber os verdadeiros termos do seu próprio acordo.


Fechamento

Brasil atinge 1 GW em data centers: motivo de celebração nos financeiros. Uberlândia recebe 100 MW (e promessas de 300 mais): motivo de omissão nos comunicados da prefeitura. A diferença está no detalhe: quem ganha com o marco é o setor; quem paga pelo marco é a cidade.


Fontes:

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Publicado por:

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Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).