O calor que sai de um data center
Um data center de 100 MW funciona 24/7. Processadores, servidores, sistemas de refrigeração — tudo gera calor. Muito calor.
Para dissipar esse calor, o RT-One usa condensadores resfriados a ar. Ar entra frio, sai quente. Esse ar quente não desaparece. Sai em “plumas térmicas” — colunas de ar 8 a 14°C mais quentes que o ambiente.
Estudos mostram: dentro de um raio de 500 metros do data center, a temperatura aumenta cerca de 2°C.
Pequis está a menos de 5 km. Monte Hebrom, a poucos quilômetros. Ambos sentirão a mudança.
Ninguém em Uberlândia foi avisado.
A vizinhança que sente o calor
Pesquisas em diversas regiões documentam o mesmo padrão:
- Data center em funcionamento → emisão de ar quente
- Ar quente não respeita cercas → dispersa no entorno
- Temperatura local sobe entre 1 e 2°C em raio de 500m
- Vento espalha ainda mais alem
Uma elevação de 2°C pode parecer pequena. Não é. Afeta:
- Umidade relativa do ar (ar mais quente = ar mais seco)
- Ciclo de chuvas locais
- Conforto térmico das residências vizinhas
- Consumo de ar condicionado
Pequis não tem estrutura para isso. Monte Hebrom menos ainda. São bairros periféricos. Se a prefeitura não comunicou, é porque pretendia não comunicar.
O aquecimento que vira custo
Residências próximas ao RT-One sentirão verões mais quentes. Isso significa:
- Ar condicionado funcionando mais (contas de energia maiores)
- Desconforto durante ondas de calor
- Possível impacto em saúde de idosos e crianças
Uma elevação de 2°C não parece muito até você estar dormindo em um quarto que não esfria. Até sua conta de energia subir R$ 50/mês. Até criança ficar febril porque a casa fica mais quente à noite.
É desenvolvimento. Para o RT-One. Para Pequis, é custo.
O estudo de vizinhança que não existiu
Regulamentações urbanas em cidades bem administradas exigem Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) para projetos de grande porte. O EIV analisa:
- Impacto na temperatura local
- Alterações no microclima
- Efeitos em residências vizinhas
- Medidas compensatórias
Uberlândia exigiu EIV do RT-One? Não há documentação pública disso.
O resultado é invisibilidade: quando Pequis começar a sofrer com aumento de temperatura em 2028, ninguém terá baseline (medição anterior) para comparar. Ninguém terá estudo prévio. Ninguém terá responsável.
O silêncio sobre plumas térmicas
A física é simples: o RT-One precisa resfriar processadores. Isso libera calor. O calor sai pela chaminé de refrigeração. Dispersa-se em “plumas” no entorno.
Nenhum documento do RT-One divulga:
- Altura e diâmetro das chaminés de refrigeração
- Temperatura esperada do ar liberado
- Simulações de dispersão térmica
- Previsão de impacto em vizinhança
- Medidas para minimizar aquecimento local
Porque tudo isso está no contrato não publicado.
A alternativa que ninguém considerou
Em projetos responsáveis, data centers reutilizam o calor. Meta em Odense (Dinamarca) aquece 6.900 residências com o calor desperdiçado. Deep Green em Lansing (EUA) aquece o sistema de aquecimento urbano.
Uberlândia poderia ter exigido: “RT-One, vocês gerarão calor. Esse calor vai aquecer o sistema de aquecimento de distrito ou irrigação da agricultura local. Nada de desperdiçar em plumas térmicas.”
Não exigiu. É mais fácil não pensar.
O impacto que cresce com a expansão
O RT-One começará com 100 MW. A projeção é expansão para 400 MW — quatro vezes mais potência.
Se 100 MW criam aumento de 2°C em 500m, o que 400 MW fará? Estimativas apontam para aumento de até 6-8°C em raio próximo — criando de fato uma “ilhota de calor” localizada.
Pequis e Monte Hebrom enfrentarão verões cada vez mais quentes. Sem planejamento, sem compensação, sem transparência.
A vizinhança que não é consultada
Nenhuma audiência pública em Uberlândia perguntou aos moradores de Pequis e Monte Hebrom:
“Vocês aceitam um aumento de 2°C de temperatura na vizinhança?” “Vocês estão preparados para contas de energia mais altas?” “Vocês concordam que o calor do data center será desprezado na atmosfera ao invés de reutilizado?”
Porque a audiência não aconteceu (prefeitura não compareceu) e o prefeito Paulo Sérgio nunca mencionou o assunto.
A vizinhança não foi consultada. Não será compensada. Apenas sofrará o impacto.
Comparação global: o que outros países fazem
| Localização | Ação Tomada | Resultado |
|---|---|---|
| Odense, Dinamarca | Meta reutiliza calor para aquecer 6.900 casas | Comunidade apoia; energia mais barata |
| Lansing, EUA | Deep Green planeja aquecer distrito | Gera apoio comunitário |
| Bradford | Data center previsto para aquecer comunidade | Suporte porque beneficia residentes |
| Uberlândia | RT-One descarta calor em pluma térmica | Silêncio; vizinhança não sabe |
O padrão é claro: quando o data center beneficia a comunidade, há apoio. Quando não beneficia (ou prejudica), há resistência.
Uberlândia escolheu o caminho do silêncio.
O conforto que ninguém contabiliza
Quando chegar o verão de 2027 e Pequis acordar com 28°C mínimas (ao invés de 26°C), ninguém saberá dizer se foi mudança climática global ou ilhota de calor do RT-One.
Porque ninguém fez medição antes. Porque ninguém avisa depois.
O “desenvolvimento” que esquenta a vizinhança sem pedir licença é apenas desenvolvimento de quem lucra. Para quem mora perto, é deterioração da qualidade de vida.
O que a prefeitura deveria ter feito
Antes de aprovar o RT-One, Uberlândia deveria ter:
- Encomendado Estudo de Impacto de Vizinhança com modelagem térmica
- Obrigado reutilização de calor (sistema de aquecimento distrital ou agricultura)
- Estabelecido limite máximo de aumento de temperatura em vizinhança
- Criado protocolo de monitoramento de temperatura (estações meteorológicas)
- Definido compensação anual aos bairros afetados
Nada disso aconteceu. Porque era mais caro. Porque era mais transparente. Porque exigiria discutir impactos reais.
Mais fácil deixar que Pequis descubra sozinho que seu verão ficou mais quente.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos — Data centers aceleram aquecimento global | Engenharia e Arquitetura — Resfriamento de data centers
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