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Brasil promete liderança sustentável em IA. Data centers violam meta de água por 3-6x

Enquanto o governo oferece R$ 5,2 bilhões em isenções, data centers brasileiros já consomem 3x mais água que o prometido. A realidade da 'infraestrutura sustentável' de 2026.

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A meta era 0,05 litros por kWh. A realidade é 6x maior.

O Brasil se posiciona como polo sustentável de inteligência artificial. O governo destina R$ 5,2 bilhões em 2026 em isenções fiscais federais para atrair mega data centers — energia 100% renovável, eficiência hídrica comprovada, infraestrutura responsável. Só falta a realidade alcançar o discurso.

Enquanto autoridades prometem liderança continental com critérios rígidos, data centers operando no Brasil já consomem 3 a 6 vezes mais água que a meta teórica de eficiência (WUE — Water Usage Efficiency) definida pelo programa federal ReData.


A promessa na encomenda

O governo federal criou em 2024 o Regime Especial de Tributação para Data Centers (ReData). O programa oferece suspensão de PIS, Pasep, Cofins, IPI e impostos de importação — um quebra-cabeça tributário desenhado especificamente para atrair Meta, Google, Amazon, Microsoft, ByteDance. Estados entram na disputa com isenções de até 95% do ICMS para projetos de “hiperescala” com mais de 10 MW.

O critério ambiental é uma linha no papel: 0,05 litros por kWh consumido (WUE).

“Será uma infraestrutura digital responsável”, prometem os gestores públicos. “100% energia renovável”, repetem em coletivas. “Impacto ambiental mínimo”, confirmam em audiências públicas.


O consumo real fala mais alto

Relatório da Unesp de março de 2026 expõe o abismo entre promessa e prática:

  • Microsoft (2025): 0,3 L/kWh — 6 vezes a meta
  • Amazon (2024): 0,15 L/kWh — 3 vezes a meta
  • Meta (2023): 0,18 L/kWh — 3,6 vezes a meta

Nenhuma das três gigantes que o Brasil quer atrair opera dentro da “eficiência hídrica” que ReData promete. E esses números são médias globais — em regiões com clima quente (Brasil é tropical), o consumo tende a ser ainda maior.

Um data center típico demanda 3 a 5 milhões de litros por dia — equivalente ao consumo de 30 mil pessoas. Cada query ao ChatGPT consome 500 litros de água.


A ironia regional: água de quem?

O relatório da Unesp mapeou 205 data centers operacionais no Brasil. 86 estão concentrados entre São Paulo e Campinas — ambas em bacias hidrográficas já estressadas (Alto-Tietê, Piracicaba-Capivari-Jundiaí). E a Exame noticiou em dezembro de 2025 que o consumo dos data centers vai dobrar até 2029 — crescimento de +130% em cinco anos.

O prefeito de Fortaleza anunciou em dezembro de 2025 um data center TikTok de R$ 200 bilhões que vai consumir 88 mil litros/dia de um aquífero em seca estrutural. Que coincidência: a região está sob escassez hídrica, e a ByteDance quer bombear água como quem não vê o problema.

Em Uberlândia, o cenário é praticamente idêntico: RT-One vai consumir 239 mil litros/dia da água subterrânea, em município que sofreu racionamento e onde a crise hídrica é realidade. A prefeitura nunca publicou avaliação de capacidade hídrica local.


Isenção de imposto, socialização de custo

Estados que oferecem 95% de ICMS perdido perdem receita — e essa receita vinha de educação, saúde, saneamento. ReData não exige contrapartida ambiental vinculante. Critério de “eficiência hídrica” existe no papel, mas ninguém verifica. Não há auditoria, não há multa, não há cláusula de rescisão se a empresa extrapolar o consumo.

São Paulo assinou com Ascenty (2026): US$ 1,2 bilhão em quatro data centers no interior. Governador celebrou “desenvolvimento econômico”. Especialistas ficaram em silêncio sobre a soma de consumos.


O que o ReData não diz

Nenhuma autoridade federal conectou os pontos:

  1. Consumo de data centers vai crescer +130% até 2029
  2. Meta de eficiência hídrica é violada 3-6x por todas as gigantes
  3. Isenções de impostos (R$ 5,2 bi federais + X bilhões estaduais) não vêm com verificação ambiental
  4. Estados perdem receita e não compensam investindo em saneamento
  5. Populações locais (rurais, indígenas, agricultores) ficam com a conta

O paradoxo é brasileiro: governo oferece incentivo do tamanho de um ministério para atrair data centers. Ninguém pergunta como quem vai pagar pelo uso da água.


Volta a Uberlândia

A ironia não é menor aqui. Prefeitura assinou acordo com RT-One e nunca publicou os termos. Não há informação pública sobre isenções municipais — se houver. O DMAE aprovou consumo de 239 mil litros/dia sem avaliar capacidade do aquífero sob pressão. O licenciamento ambiental continua em limbo — nenhuma LP, nenhuma LI, nenhuma LO.

Prefeito Paulo Sérgio comemora “Selo Diamante de Transparência” de 97,1% enquanto o maior projeto de infraestrutura da cidade segue sem divulgação de contratos, isenções ou avaliações ambientais.

E quando o MPF acionou a 4ª Câmara para barrar o TikTok no Ceará — exigindo EIA/RIMA completo, não apenas RAS simplificado — ninguém em Uberlândia pediu o mesmo para RT-One.


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Fontes:

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).