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Corrida de data centers no Brasil: identidades falsas e silêncio ambiental

Investigação do Aos Fatos revela que corrida de data centers ignora impacto ambiental e usa identidades falsas. RT-One em Uberlândia continua operando na sombra.

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Quando a “corrida” pela IA inclui identidades falsas e impactos invisíveis

O Aos Fatos, agência de checagem de fatos ligada à Universidade de São Paulo, publicou uma investigação devastadora sobre a corrida de data centers no Brasil: empresas do setor usam identidades falsas em apresentações públicas, ignoram completamente impacto ambiental, e contam com isenções fiscais do governo para operar sem regulação.

A reportagem não menciona a RT-One especificamente. Mas Uberlândia — que sedia o projeto — reconhece cada detalhe.


O padrão nacional que Uberlândia ignora

Segundo investigadores da Aos Fatos, a corrida por data centers no Brasil segue um script previsível:

  1. Promessas de investimento gigantesco (R$ 6 bilhões no caso da RT-One)
  2. Oferecimento de incentivos fiscais via REDATA (isenção de 5 anos)
  3. Silêncio estratégico sobre impacto ambiental (nenhum EIA/RIMA publicado)
  4. Ausência de regulação robusta (data centers não têm legislação estadual específica)
  5. Identidades e narrativas falsas (não investigado localmente, mas a RT-One também mentiu sobre parcerias com a Intel)

A maioria desses passos aconteceu em Uberlândia de forma idêntica.


O uso de identidades falsas chega a Uberlândia

Aos Fatos descobriu que empresas de data centers apresentam-se sob nomes falsos ou usam dados de contatos inexistentes em audiências públicas. A RT-One em Uberlândia não foi investigada nesse artigo — mas em outro, a mesma agência mostrou que Fernando Palamone, CEO da RT-One, foi desmentido pela Intel sobre uma suposta parceria.

Palamone afirmou que a Intel seria cliente. A Intel negou. Aos Fatos publicou, em português, a desmentida.

A prefeitura de Uberlândia nunca questionou Palamone depois disso.


Impacto ambiental: o que não é dito

A investigação do Aos Fatos aponta que especialistas universitários alertam sobre o consumo de água e energia, mas prefeituras “pressionadas por promessas de investimento e desenvolvimento econômico fecham os olhos para impactos ambientais negativos”.

Isto é exatamente Uberlândia:

O que foi dito:

  • R$ 6 bilhões de investimento
  • Menos de 100 empregos permanentes
  • 239 mil litros de água por dia (número minimizado)
  • Energia 100% renovável (promessa não verificada)

O que não foi dito:

  • Impacto na tarifa de energia local quando a subestação de R$ 160 milhões entrar em operação
  • Estudos de viabilidade hídrica em contexto de seca recorrente no Triângulo Mineiro
  • Impacto no cerrado e na biodiversidade local
  • Números reais de empregos permanentes vs. temporários
  • Onde a água virá quando o Aquífero Guarani estiver mais seco

Por que “regulação” virou uma palavra invisível

Aos Fatos entrevistou especialistas que afirmam não existir regulação estadual robusta para orientar a instalação de data centers. Cada prefeitura fica responsável por aprovar ou rejeitar — mas sem critérios técnicos, sem parâmetros de impacto ambiental, sem modelos comparativos com outras cidades.

Uberlândia aprovou a RT-One sem:

  • Licenciamento ambiental completo (EIA/RIMA)
  • Licenças de Prévia, Instalação e Operação (LP/LI/LO)
  • Transparência de contratos ou isenções
  • Debates públicos estruturados (a audiência de 26/03/2026 na Câmara foi ausente do prefeito)

Regulação é lenta. Incentivo fiscal é rápido.


O silêncio da imprensa local

Ao Fatos publicou sua investigação em nível nacional. Agências de checagem não têm equipes em Uberlândia. A imprensa local cobriu a RT-One como “oportunidade” sem questionar as falhas de transparência que a reportagem nacional expõe.

Quando uma agência de verificação de fatos estatal encontra “uso de identidades falsas” e “impacto ambiental ignorado” em data centers brasileiros, a primeira reação de uma prefeitura responsável seria: rever o projeto localmente.

Uberlândia não fez isso.


O que deveria ter acontecido depois da investigação do Aos Fatos

  1. A prefeitura pediria para a RT-One publicar contratos, dados de eficiência energética e estudos hídricos
  2. A Câmara municipal solicitaria ao Ministério Público que analisasse a compatibilidade do projeto com regulações estaduais
  3. A imprensa local entrevistaria especialistas da UNESP e USP sobre os achados
  4. O prefeito compareceria a audiência pública e responderia perguntas sobre identidades falsas no setor

Nenhum disso aconteceu.


Fechamento

A Aos Fatos descobriu um padrão nacional: identidades falsas, impacto ambiental ignorado, prefeituras seduzidas por promessas. A RT-One se encaixa perfeitamente nesse padrão — e Uberlândia nunca leu o manual que deveria tê-la advertido.


Fontes:

Leia também:

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).