O Brasil seco, o data center úmido
Brasil entra em 2026 com sinais de estiagem prolongada. O Monitor de Secas da ANA registra risco crescente de instabilidade no abastecimento de água em estados como São Paulo, Paraná e Minas Gerais. Cidades enfrentam restrições de consumo. Reservatórios recuam. Cenários de crise parecem cada vez menos hipotéticos.
Exatamente neste momento, o governo oferece isenção fiscal para instalar data centers — máquinas que consomem entre 3 e 5 milhões de litros de água por dia, para resfriar seus processadores. É como convidar gafanhotos quando a seca bate na porta.
E o prefeito Paulo Sérgio segue em silêncio.
O consumo invisível enquanto a torneira seca
O Triângulo Mineiro não está em crise hídrica agora. Mas a tendência nacional é clara: estiagens mais longas, recuperação mais lenta, pressão sobre mananciais já explorados. É exatamente o momento em que Uberlândia aprova o RT-One — um projeto que consumirá 239 mil litros de água diariamente.
Colocando em perspectiva: 239 mil litros por dia é água para aproximadamente 4.760 famílias de quatro pessoas, considerando consumo residencial de 150 litros por habitante/dia. Ou seja, todo dia, o RT-One consumirá água equivalente à de uma pequena cidade.
Isso não é notícia em Uberlândia. Porque o prefeito não quis que fosse.
Especialistas alertam, prefeitura ignora
A Universidade Estadual Paulista (Unesp) publicou um alerta em março de 2026: especialistas apontam que o impacto hídrico dos data centers não tem recebido a mesma atenção que o impacto energético, mas é igualmente preocupante. Particularmente em regiões que já enfrentam pressão hídrica estrutural.
O Rio Claro, que abastece Uberlândia, já recebe pressão da expansão urbana e agricultura. Agora receberá um consumidor que precisará de água 24/7/365 — sem picos, sem economia, sem justificativa ambiental além do lucro corporativo.
Nenhuma audiência pública em Uberlândia mencionou isso. O DMAE aprovou 239 mil litros diários sem explicar: por quê, neste momento, em crise hídrica iminente?
Silêncio é a resposta.
O direito à água que vira isenção fiscal
Especialistas alertam que a expansão de data centers em larga escala tende a intensificar pressões pré-existentes ao competir por energia e água em regiões que já enfrentam estresse hídrico estrutural, agravado por mudanças climáticas.
Uberlândia não está em estresse hídrico estrutural — ainda. Mas o Triângulo Mineiro sente as frentes de seca chegando. O aquífero Guarani, que abastece a região, já é monitorado por organizações ambientais como recurso em risco.
| Situação | Status |
|---|---|
| Brasil em 2026 | Estiagens prolongadas, risco de instabilidade |
| Triângulo Mineiro | Pressão crescente, aquífero monitorado |
| Uberlândia com RT-One | +239 mil litros/dia de consumo garantido |
| Resposta da prefeitura | Nenhuma informação pública |
Enquanto governadores discutem rodízios de água com agricultores, Uberlândia aprova data center com consumo equivalente a uma cidade pequena. Mas isso não é um conflito, segundo quem governa. É desenvolvimento.
A contradição do “desenvolvimento” em tempo seco
A Lei 278/2026 (REDATA) exige que data centers atendam critérios de “eficiência hídrica”. Reutilização, tratamento, minimização de consumo. Tudo bonito no papel.
Na prática, o RT-One foi aprovado com consumo de 239 mil litros/dia de água subterrânea. Nenhum documento público detalha:
- Se há plano de reutilização
- Se há tratamento de água antes da devolução
- Se há tanques de armazenamento para períodos de seca
- Se há critérios de interrupção de serviço em caso de crise hídrica
O parecer do DMAE nunca foi publicado com transparência.
Enquanto isso, cidades australianas enfrentam crises hídricas causadas por data centers de empresas como Amazon e Google. Aquíferos em risco. Conflitos comunitários. Marcos regulatórios desatualizados.
Uberlândia está dois anos atrás do mapa de problemas que podia ter evitado.
O silêncio enquanto a água diminui
Paulo Sérgio posta sobre “Uberlândia Empreendedora”. Posta sobre Selo Diamante de transparência. Posta sobre visitações a obras de creche. Nunca posta sobre o fato de que a cidade está apostando em um projeto de alto consumo hídrico exatamente quando o Brasil entra em ciclo de estiagem.
Porque falar disso seria enfrentar a realidade: Uberlândia não tem plano de crise hídrica. Uberlândia não levantou essa questão com o RT-One. Uberlândia aprovou como se a água fosse infinita.
É fácil quando você não comenta.
A conta do silêncio
Data centers globais consomem hoje 560 bilhões de litros de água por ano. A projeção até 2030 é de 1,2 trilhão — mais que dobrando. O Brasil quer ser polo disso, com isenções fiscais que custam bilhões aos cofres públicos.
As cidades? Pagam a água. Literalmente.
Uberlândia já aprovou consumir água equivalente ao de 4.760 famílias, todos os dias, indefinidamente. Enquanto isso, o monitor de secas aponta que 2026 começou com risco crescente de instabilidade hídrica.
A prefeitura escolheu não comentar nada disso. Porque quando o bem comum encontra o lucro privado e o prefeito fica mudo, é simples saber quem ganhou.
O espelho falso
Dizem que o Brasil tem 90% de energia renovável, então data centers aqui são “sustentáveis”. Mentira. Energia renovável não significa água infinita. São dois problemas diferentes. Um resolvido (energia), outro agravado (água).
Uberlândia acreditou no espelho falso. Ou fingiu acreditar.
Quando 2028 chegar, se os aquíferos caírem mais rápido que o previsto, se restrições forem necessárias, se o RT-One precisar reduzir consumo, ninguém se lembrará que o prefeito foi consultado e respondeu com silêncio.
Mas a água lembrada.
Fonte: Jornal da Unesp — Especialistas alertam para alto consumo de água por data centers | ClimaInfo — Expansão de data centers e direito à água
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