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Gerador diesel do RT-One: a energia 'verde' que ninguém menciona

Data center com backup diesel em Uberlândia contradiz promessas de sustentabilidade. Emissões, barulho e poluição raramente são discutidos.

5 min read opiniao gerador-diesel emissoes rt-one uberlandia poluicao

O barulho invisível da sustentabilidade

Falam de energia renovável. Falam de matriz verde. Falam de sustentabilidade do RT-One em Uberlândia. Ninguém fala do gerador diesel.

Porque todo data center precisa de backup. Se cair a rede da Cemig — e redes caem — o data center não pode parar. Uma fração de segundo de interrupção custa milhões. Então tem gerador. Alimentado a diesel.

Na prática: o RT-One, quando precisar de backup, vai ligar geradores a diesel que emitem fumaça preta, dióxido de carbono, monóxido de carbono, dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio, material particulado e barulho ensurdecedor.

Tudo invisível no discurso de sustentabilidade.


A energia que ninguém planejou

Data centers globais usam geradores diesel como backup padrão. A maioria das instalações mantém conjuntos de geradores a óleo diesel prontos para qualquer falha no fornecimento de energia. É proteção de investimento — perder processamento é perder dinheiro.

Uberlândia aprovou o RT-One com subestação dedicada da Cemig. Ótimo. Mas ninguém publicou plano de backup energético. Ninguém mencionou se haverá diesel. Ninguém explicou emissões, ruído, protocolo de funcionamento.

Porque essas informações não foram divulgadas.


O contraste entre promessa e realidade

CenárioDiscurso OficialRealidade Técnica
Operação normal”Energia 100% renovável”Correto, vem da hidroelétrica/eólica
Falha na redeSilêncio absolutoGerador diesel liga
Durante funcionamento diesel”Sustentável e seguro”Emissões: CO2, NOₓ, SO2, particulado
Impacto em Pequis/Monte HebromNão mencionadoBarulho, poluição do ar
Frequência de usoDesconhecidaPode ser rotina durante manutenção

O RT-One será “verde” enquanto funcionar a eletricidade da Cemig. Quando não funcionar, solta fumaça preta por chaminés que ninguém questionou.


As emissões que a lei federal exige, mas ninguém monitora

A Lei 278/2026 (REDATA) exige que data centers atendam critérios de sustentabilidade ambiental como contrapartida para isenção fiscal. Teoricamente, isso inclui planos para minimizar emissões de carbono durante operação.

Um gerador diesel queimando é emissão dirета de carbono — não é renovável.

Nenhum documento publicado menciona:

  • Qual capacidade de diesel está prevista (em kW de potência)
  • Qual o tempo máximo de funcionamento esperado
  • Quais as emissões anuais estimadas
  • Qual protocolo será seguido durante queimadas regionais
  • Quem monitorará e reportará essas emissões

O silêncio é política.


O barulho que Pequis vai ouvir

Geradores diesel de grande escala geram pressão sonora — barulho. Um gerador para data center de 100+ MW pode ultrapassar 80-90 decibéis. São dezenas de máquinas funcionando juntas em protocolo de backup.

Pequis está a aproximadamente 5 km de distância. Dependendo da topografia e direção do vento, será audível.

Nenhuma audiência pública em Uberlândia mencionou impacto sonoro. Nenhuma legislação municipal estabeleceu limite de ruído noturno para o RT-One. O prefeito Paulo Sérgio nunca postou sobre o assunto.

A audiência que deveria ter ocorrido em março não aconteceu porque a prefeitura não compareceu.


A alternativa que ninguém escolheu

Especialistas apontam que data centers podem usar sistemas BESS (Battery Energy Storage Systems) — baterias — como backup. Resposta instantânea, silenciosa, sem emissões. Menos poluição, mais compatível com sustentabilidade.

Também são mais caras. E o RT-One provavelmente escolherá diesel — barato, provado, padrão.

Porque quando a escolha é entre greenwashing e gastos reais, a prefeitura deixa a empresa privada decidir. E a empresa privada escolhe o caminho mais barato, que é diesel.


O que a energia renovável esconde

Matriz renovável é verdade. Mas renovável não cobre o backup. Renovável não diminui o barulho. Renovável não nega as emissões quando o gerador liga.

Em período de seca, quando a hidroelétrica produz menos, o backup diesel provavelmente funcionará mais frequentemente. Durante a estação de manutenção preventiva, o gerador pode rodar horas de testes. Em casos de falha da Cemig — e a Cemig falha — o diesel é a única salvação para o RT-One.

Tudo invisível. Tudo legal. Tudo dentro do contrato que nunca foi publicado.


O silêncio do prefeito sobre poluição

Paulo Sérgio posta sobre transparência. Posta sobre “Uberlândia Empreendedora”. Posta sobre visitações e gestos simbólicos.

Nunca postou:

  • Quem financiou o estudo de impacto sonoro (se existe)
  • Qual o protocolo de funcionamento do gerador
  • Quais emissões são esperadas anualmente
  • Como a prefeitura monitorará cumprimento ambiental
  • Quem responderia por poluição sonora ou atmosférica

Porque tudo isso é do RT-One decidir. E o prefeito apenas observa.


A conta que será paga silenciosamente

Um gerador diesel rotor de 400+ kW queimando ao máximo libera:

  • CO2: toneladas/ano (exato não divulgado)
  • NOₓ (óxidos de nitrogênio): centenas de kg/ano
  • SO2 (dióxido de enxofre): dezenas de kg/ano
  • Material particulado: quantidades variáveis conforme manutenção

Nenhum desses números foi publicado. Nenhuma auditoria ambiental independente foi encomendada.

Quando 2028 chegar e alguém reclamar de barulho à noite ou poluição do ar, a resposta será: “É infraestrutura essencial. Precisa estar protegida.”


O que a sustentabilidade real exigiria

Se o RT-One fosse realmente sustentável, como a lei federal promete, a prefeitura teria exigido:

  1. Sistema BESS ao invés de diesel, ou misto com limite de funcionamento
  2. Isolamento acústico que impedisse barulho em Pequis
  3. Monitoramento contínuo de emissões com relatório público trimestral
  4. Limite máximo de operação do gerador (ex: máximo 20 horas/ano)
  5. Multa significativa por violação de limites

Nada disso aconteceu. Porque o RT-One não foi pensado para ser sustentável. Foi pensado para ser lucro.


Fonte: Data Center Dynamics — Data centers sem diesel? | Jornal da USP — Licenciamento ambiental de data centers

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Publicado por:

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Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).