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A janela de 3 anos: Brasil quer data centers, mas ignora a conta da água

Governo e prefeitos celebram oportunidade de expansão de data centers com prazo urgente, enquanto desafios estruturais de água, energia e licenciamento ambiental seguem sem solução.

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Três anos para o Brasil decolar — e nenhum para resolver o básico

A mensagem chegou alto e claro em julho de 2026: Brasil tem uma “janela de 3 anos” para se tornar competitivo em data centers no mercado global. Governos, prefeitos e associações do setor repetem como mantra. A urgência é real. A oportunidade, dizem, é histórica.

Só há um pequeno problema. Enquanto celebram essa janela mágica de oportunidade, ignoram que a infraestrutura necessária para sustentar essa expansão — água, energia, licenciamento ambiental — segue patinando.


A ilusão da oportunidade sem fricção

O discurso oficial é sedutivo: sete cidades se posicionam para receber megaprojetos de data centers. Rio de Janeiro quer virar “capital da inteligência artificial brasileira”. Ceará constrói o maior data center da América Latina. São Paulo e Santa Catarina já recebem investimentos bilionários. Uberlândia entra na fila.

Cada prefeito que assina o contrato fala em geração de empregos, atração de tecnologia, desenvolvimento econômico. Ninguém, nenhum prefeito, abre a conversa sobre o que acontece quando você coloca um consumidor de 239 mil litros de água por dia numa região já sob pressão hídrica.


A conta que ninguém quer pagar

A expansão de data centers no Brasil abriga um dilema estrutural que a narrativa da “oportunidade” quer ocultar. Esses centros consomem enormes quantidades de água para resfriamento — entre 30% e 40% do total de energia usada vai para climatização. Em regiões que já enfrentam estiagem, compete direto com abastecimento público e agricultura.

O setor fala em “oportunidade”. Especialistas falam em risco. A Universidade Federal de São Paulo alertou que a expansão pode “pôr em risco a transição energética”. A ClimaInfo documentou que incentivos fiscais como o Redata contradizem metas de tutela ambiental. A Unifesp abriu debate sobre água e energia — problemas que nenhuma “janela de 3 anos” resolve em 36 meses.


Licenciamento que ninguém pediu para rever

Em Uberlândia, o padrão é emblemático. O data center RT-One (100 MW iniciais, expansão para 400 MW) tramita sem EIA/RIMA, sem LP/LI/LO, em limbo municipal e estadual. O DMAE aprovou 239 mil litros/dia sem análise de impacto estrutural. O MPF abriu inquérito civil.

E o que o prefeito Paulo Sérgio (PP) fez? Celebrou sua isenção de transparência com “Selo Diamante”, postou sobre creche inaugurada, viajou para Portugal. Nunca publicou os contratos, nunca discutiu as contrapartidas, nunca compareceu à audiência pública sobre o projeto.

Esse padrão repete-se em cidades menores. Governo federal cria REDATA (incentivo fiscal de 5 anos). Estados expedem licenças provisórias. Prefeituras assinam sem questionar consumo de água ou impactos no zoneamento. Ninguém quer frear a oportunidade fazendo perguntas chatas.


A urgência que só funciona numa direção

A “janela de 3 anos” é urgente quando se trata de atrair investimento estrangeiro. Mas quando o assunto é resolver gargalos de infraestrutura hídrica, energética e regulatória — esses podem esperar. Podem esperar indefinidamente.

Brasil quer virar “polo de data centers verdes” com matriz renovável. Mas não investe em armazenamento de energia em larga escala (necessário porque solar e eólica são intermitentes). Quer expandir consumo de água com eficiência hídrica no papel, mas não revisa outorgas nem consulta comunidades locais.

O setor diz que Brasil tem “vantagem competitiva” por energia renovável e localização estratégica. É verdade. Mas enquanto essa vantagem atrai bilhões de dólares, as cidades que recebem os data centers ficam com o ônus de resolver contradições que ninguém na capital quis enfrentar.


Três anos para competir, quanto tempo para arrumar a bagunça?

A urgência de Brasília e das câmaras de comércio é a urgência do capital. Captar investimento rápido antes que concorrentes avancem. Criar incentivos, facilitar licenciamento, desburocratizar.

Mas há outra urgência — a das comunidades próximas aos projetos, da água que seca, da energia que satura a rede local, do licenciamento que deveria ter acontecido antes, não depois.

Essa urgência ninguém tem pressa de resolver. Ela pode esperar até 2029, depois que a “janela” fechar e os investidores já tiverem saído.


Fonte: Jornal do Comércio — Brasil tem janela de 3 anos para se tornar competitivo em data centers; Seu Dinheiro — A nova corrida da IA: Brasil quer virar polo de data centers — mas há um problema ambiental no caminho

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Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).