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R$ 30 bilhões em data centers de IA: quem paga a conta ambiental

Ascenty, Microsoft e Elea investem bilhões em complexos de IA no Brasil. Promessas de sustentabilidade. Silêncio sobre o custo em água e energia.

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A Conta Silenciosa

No mesmo mês em que Uberlândia aguardava notícias sobre o RT-One, gigantes de tecnologia anunciavam na imprensa que o Brasil virou eldorado dos data centers para inteligência artificial. Ascenty: US$ 1,2 bilhão em Sumaré. Microsoft: R$ 14,7 bilhões até 2027. Elea: Rio AI City em Jacarepaguá. Investimento total na casa de R$ 30 bilhões. Matriz elétrica renovável. Potencial de atrair R$ 2 trilhões em uma década. O Brasil será a potência global de IA.

Ninguém — em nenhum desses anúncios — mencionou a água.


A Promessa Padrão

Toda empresa que anuncia um data center no Brasil em 2026 faz a mesma jogada: energia renovável. O Brasil tem hidrelétricas, eólicas, biomassa. Lindo discurso. Sustentável. Verde. Pronto para PowerPoint.

Ninguém fala em W (Water) de WUE (Water Usage Effectiveness). A Ascenty divulga “zero consumo operacional”. A Microsoft promete “infraestrutura sustentável”. A Elea segue o script. Todos convergem na mesma narrativa: tecnologia de ponta, energia limpa, desenvolvimento sem culpa.

A conta de água fica para depois. Quando tiver consumidor e não houver volta.


O Número Que Desapparece

A realidade dos números é que toda tecnologia — renovável ou não — precisa de água para esfriar computadores que processam dados 24/7. A Ascenty admite: 23 mil litros por megawatt instalado, mais 10% anual de reposição em circuito fechado. Para 90 MW em Sumaré, isso é aproximadamente 2,07 milhões de litros iniciais, mais 200 mil litros anuais em manutenção.

Sobre a mesa. Em números. Mas ninguém lê números em um press release.

A Microsoft segue silenciosa. A Elea também. Sabem que se mencionarem consumo de água em um projeto de R$ 2 trilhões potenciais, alguém na imprensa pode perguntar: “E se não tiver água?”


Enquanto Uberlândia Faz o Cálculo

O RT-One admite 239 mil litros de água por dia. Diretos. Sem disfarce em “WUE” ou “operacional”. O DMAE de Uberlândia aprovou em setembro de 2025. A prefeitura citou. Documentou. Publicou.

Ninguém em São Paulo, Rio ou Brasília pediu desculpas por investir R$ 30 bilhões enquanto Uberlândia enfrenta crise hídrica permanente.

A lógica é visceral: Ascenty, Microsoft e Elea estão perto de cidades grandes, com pressão de governo estadual para atrair investimento. O RT-One está perto de Uberlândia — uma cidade média, interior, sem poder político. A água de Uberlândia é mais barata. Os custos ambientais são deslocados. Alguém paga. Não é São Paulo.


A Ilusão do “Potencial”

O anúncio do governo é que Brasil pode atrair R$ 2 trilhões em investimentos ao longo de uma década. Inovação, produtividade, emprego, renda. Tudo bonito. Tudo possível. Se não houver seca. Se não houver racionamento. Se não houver conflito por água entre uma cidade que bebe e um data center que esfria.

Mas especialistas da Unesp, Unifesp e UFU já alertam. Desde 2025. O consumo de água em data centers é “igualmente preocupante” quanto a energia. A REDATA impõe requisitos rigorosos. Mas “rigoroso” significa apenas que data centers precisam monitorar consumo e relatar — não que param se a água acabar.


O Cálculo Que Falta

Não há estudo que considere a seguinte pergunta: quanto custa, em termos de racionamento urbano, de secas agrícolas, de depleção de aquífero, a operação de um data center em região com crise hídrica?

Porque se houvesse, o investimento em Uberlândia não seria rentável. A conta ambiental inverteria a equação financeira.

Então não há estudo. Há press release. Há promessa. Há silêncio.


Quem Vai Pagar

R$ 30 bilhões investidos em data centers. R$ 2 trilhões esperados em retorno. Energia renovável, matriz verde, Brasil como potência. Tudo visível no balanço das empresas.

O custo em água não aparece no relatório. Aparece nas contas de Uberlândia. Nas torneiras secas em julho. No racionamento imposto à população. Na irrigação agrícola reduzida. Na escola sem água para beber.

A prefeitura aprova. O governo estadual segue investindo. As empresas anunciam. A imprensa celebra. Ninguém estranha que o preço mais alto — a água — seja pago por quem não ganhou nada.

Isso não é progresso. É contabilidade criativa.


Fonte: Revista Fórum — Investimento de R$ 30 bilhões em data centers de IA

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Publicado por:

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Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).