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Resíduos eletrônicos do RT-One: o lixo que ninguém planejou

Data center gera toneladas de e-waste por ano. Uberlândia não tem plano de descarte, nem regulação sobre reciclagem e destino do lixo eletrônico.

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O lixo que fica quando o computador morre

Um servidor de data center dura entre 3 e 5 anos. Quando deixa de ser útil — e o RT-One terá centenas deles — o que acontece?

Vira lixo eletrônico. E-waste, na terminologia técnica.

O Brasil gera aproximadamente 680 mil toneladas de lixo eletrônico anualmente. Globalmente, são 62 milhões de toneladas por ano, crescendo em 2,6 milhões de toneladas adicionais a cada 12 meses. Projeção para 2030: 82 milhões de toneladas.

Um data center típico descarta equipamentos contendo chumbo, mercúrio, ouro, cobre, metais raros. Tudo isso precisa ser reciclado. Tudo isso custa dinheiro. E ninguém em Uberlândia sabe qual é o plano.


A contabilidade que não aparece

Quantos servidores o RT-One terá? Ninguém sabe. Nenhuma informação foi publicada.

Quantos serão substituídos a cada ciclo de vida? Desconhecido.

Qual o volume anual de e-waste? Não divulgado.

Onde será reciclado? Silêncio.

Quem pagará pela coleta, transporte e processamento? Contrato fechado, não publicado.

A prefeitura tem plano municipal de gestão de resíduos eletrônicos provenientes do RT-One? Não existe.


O regulamento que não cobre data center

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e a legislação ambiental brasileira exigem gestão responsável de resíduos eletrônicos. Equamentos de data center não podem ir para lixo comum. Precisam de coleta especializada com certificação, rastreamento, segurança de dados.

Isso é lei. Uberlândia sabe disso? Provavelmente não publicou nenhum edital de licitação para serviço de coleta de e-waste do RT-One.

O RT-One responsável? Segundo o contrato não publicado, sim. Mas quem fiscaliza? Ninguém. A prefeitura não criou protocolo de auditoria. Não há relatório público de descarte. Nada.

Sustentável é apenas assumir que será feito.


O lixo de equipamentos específicos

Um data center de 100 MW precisa de:

  • Centenas de servidores
  • Dezenas de switches de rede
  • Unidades de armazenamento (storage)
  • Nobreaks (UPS) — contêm chumbo
  • Sistemas de refrigeração com componentes eletrônicos
  • Cabos, conectores, painéis de controle

Quando chegam ao fim da vida útil (3-5 anos), viram toneladas de e-waste. Com componentes que não podem ir para aterro comum. Com dados que precisam ser destruídos com segurança. Com metais preciosos que valem dinheiro, se reciclados corretamente.

Nenhuma audiência pública em Uberlândia mencionou isso.


A economia circular que não existe

Especialistas apontam que gestão responsável de e-waste em 2026 não é apenas ambientalmente necessária — é economicamente vantajosa. Recuperação de ouro, cobre, alumínio, terras raras. Resíduos podem ser lucro.

Mas só funciona se houver transparência, planejamento, auditoria.

O RT-One opera em modelo de “fazer e esconder”. Dessa forma:

EtapaCenário ResponsávelRealidade RT-One
Descarte de equipamentoEmpresa anunciaNão publicado
Coleta especializadaLicitação públicaContrato privado
Destinação finalRelatório anualSilêncio
FiscalizaçãoÓrgão municipalNão existe
Recuperação de materiaisQuantificadaDesconhecida

A economia circular requer transparência. A RT-One prefere invisibilidade.


Onde vai o lixo eletrônico de data center?

Teoricamente: para empresa especializada em reciclagem certificada.

Na prática: ninguém sabe. O contrato do RT-One nunca foi publicado. Se a empresa deixar Uberlândia amanhã, quem fica com o problema?

Brasil gera 680 mil toneladas de e-waste por ano. Lixão existe em municípios onde ninguém regulou. Data centers em outras regiões deixaram e-waste. Uberlândia será diferente porque quis conhecer o plano?

Não. Porque é uma cidade que aceita data center sem perguntas.


O precedente que ninguém vê

Data center de grande escala gera responsabilidades. Quando a empresa fecha fábrica em outro país, o e-waste fica. Quando muda de fornecedor, equipamento antigo vira lixo. Quando faz upgrade, descarta em massa.

Não há memória porque não há divulgação.

Uberlândia está aceitando data center de capital estrangeiro, com contrato não publicado, sem auditoria de e-waste. Quando o RT-One discartar suas primeiras toneladas de servidores em 2029 ou 2030, a cidade poderá:

A) Exigir coleta correta e reciclagem (custo alto) B) Fechar os olhos (custa o meio ambiente) C) Litigar depois (tarde demais)

Paulo Sérgio não pensou nisso. Ou pensou e preferiu não comentar.


A Lei 278/2026 que não prevê lixo

A Lei REDATA exige sustentabilidade ambiental como contrapartida. Deveria incluir gestão de resíduos sólidos e eletrônicos como requisito obrigatório, com auditoria anual.

Não inclui. Ou inclui na lei geral, mas ninguém verifica.

Uberlândia poderia ter exigido, na aprovação municipal, plano de gestão de e-waste com relatório público anual. Poderia ter exigido que a empresa contratasse serviço de reciclagem certificado e publicasse números.

Não exigiu. Silêncio é conformidade.


O custo invisível do desenvolvimento

Quando o RT-One gerar suas primeiras toneladas de lixo eletrônico, a conversa será: “Onde vai?” Depois: “Quanto custa?” Depois: “Quem paga?”

As respostas provavelmente não serão públicas.

Enquanto isso, o Brasil gera 680 mil toneladas de e-waste anualmente. A geração global cresce 2,6 milhões de toneladas por ano. Uberlândia aprovou um data center que vai contribuir para esse volume, sem planejar coleta, sem legislação específica, sem auditoria.

Desenvolvimento é assim: o lucro é visível, o lixo é invisível.


O que deveria ter acontecido

Antes de aprovar o RT-One, Uberlândia deveria ter:

  1. Exigido Plano de Gestão de Resíduos Eletrônicos com metas anuais
  2. Determinado que empresa contratasse recicladora certificada
  3. Criado protocolo de auditoria municipal trimestral
  4. Publicado anualmente volume, tipo e destinação de e-waste
  5. Estabelecido multa pesada por descarte irregular

Nada disso aconteceu. Porque o prefeito achou mais fácil não falar sobre lixo.


Fonte: Data Center Dynamics — Por que o lixo eletrônico deve fazer parte da sustentabilidade | IDEC — Data centers e impactos ambientais

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Publicado por:

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Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).