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Data centers no Brasil: mapa dos projetos de IA, energia, agua e licenciamento

Panorama completo dos data centers no Brasil em 2026: RT-One Uberlandia e Maringa, TikTok Caucaia, Scala AI City e Elea Rio AI City. Capacidade, investimento, status de licenciamento, consumo de agua e energia, controversias e o que esperar.

TL;DR: Cinco projetos de data center de grande porte movimentam o Brasil em 2026, somando ate 9.576 MW de capacidade projetada e dezenas de bilhoes em investimento anunciado. Nenhum opera ainda. Todos enfrentam desafios de licenciamento ambiental, transparencia e governanca. Este artigo mapeia cada projeto e mostra o que os numeros revelam — e o que escondem.


O Brasil na rota dos data centers de IA

Em menos de dois anos, o Brasil passou de coadjuvante a protagonista na corrida por infraestrutura de inteligencia artificial na America Latina. Cinco projetos de data center de grande porte foram anunciados entre 2024 e 2026, todos voltados para cargas de IA — treinamento e inferencia de modelos de linguagem, processamento em escala de hyperscale e nuvem computacional.

O momento nao e coincidencia. Tres fatores convergem:

1. Demanda global explosiva. A Agencia Internacional de Energia (IEA) projeta que o consumo eletrico de data centers mais que dobre ate 2030, puxado por IA. GPUs modernas (H100, B200) consomem de 40 kW a 120 kW por rack — contra 5 kW a 10 kW de servidores convencionais.

2. Vantagem energetica brasileira. O Brasil tem uma das matrizes eletricas mais renovaveis do mundo (mais de 80% de fontes limpas) e um sistema interligado nacional (SIN) que oferece redundancia. Isso atrai operadores que precisam anunciar metas de carbono enquanto escalam consumo.

3. Corrida regulatoria. Prefeituras e governos estaduais competem para atrair esses projetos com incentivos fiscais, terrenos e aprovacao acelerada — antes que o marco regulatorio nacional esteja maduro.

O resultado e um mapa desigual: cinco projetos em cinco estados, cada um com seu proprio nivel de transparencia, controversia e risco.


O mapa dos projetos

RT-One Uberlandia (MG)

DadoValor
EmpresaRT-One (registrada em SP, dez/2024)
CEOFernando Palamone
Capacidade100 MW (fase 1) ate 400 MW (final)
InvestimentoR$ 6 bilhoes
Area1 milhao de m² (630 mil construidos + 300 mil de APP)
Agua2,77 L/s (239 mil litros/dia) — agua potavel do DMAE
EnergiaSubestacao dedicada da Cemig em negociacao
Licenca ambientalNenhuma. Semad/FEAM-MG ainda nao recebeu pedido formal
MPFInquerito civil instaurado
ControversiaCEO falsamente representado como COO da Intel em 2024

O projeto mais documentado publicamente — e o mais polemico. A RT-One conseguiu aval da prefeitura, do DMAE e esta em negociacao avancada com a Cemig, mas o licenciamento ambiental estadual ainda nao comecou. O MPF investiga possiveis danos ao Aquifero Guarani e a escala do consumo energetico.

Leia mais: Impacto Ambiental da RT-One em Uberlandia · Licenciamento ambiental do data center · Consumo de agua · Consumo de energia


RT-One Maringa (PR)

DadoValor
EmpresaRT-One
Capacidade400 MW
InvestimentoR$ 6 bilhoes
LocalizacaoSob linha de transmissao Itaipu-Sarandi
AguaAdmitiu publicamente possibilidade de captacao do Aquifero Guarani
Licenca ambientalNenhuma
MPFInvestigacao em curso

O projeto gemeo de Uberlandia, anunciado primeiro (jan/2025). A principal diferenca: a RT-One admitiu em Maringa a possibilidade de captar agua do Aquifero Guarani para refrigeracao — admissao que ecoou no inquerito de Uberlandia. A localizacao sob a linha de Itaipu da ao projeto vantagem estrategica de energia renovavel direta.

Leia mais: RT-One Maringa — ficha completa · Comparativo Uberlandia vs Maringa


TikTok / Casa dos Ventos — Caucaia (CE)

DadoValor
EmpresasTikTok + Casa dos Ventos
Capacidade210 MW (fase 1) ate 576 MW
InvestimentoNao divulgado
Licenca ambientalRAS (Relatorio Ambiental Simplificado) — contestado
MPFMPF-CE questionou a adequacao do RAS
PGRClassificou RAS como “inadequado, insuficiente e inadmissivel” para esta escala

O unico projeto que obteve alguma licenca ambiental ate agora — e justamente isso gerou a maior controversia regulatoria. A PGR (Procuradoria-Geral da Republica) emitiu parecer contundente contra o uso de RAS para um empreendimento de 576 MW. O caso criou precedente que afeta todos os outros projetos brasileiros.

Leia mais: TikTok Caucaia — ficha completa · Comparativo RT-One vs TikTok


Scala AI City — Eldorado do Sul (RS)

DadoValor
EmpresaScala
Capacidade1.800 MW (fase 1) ate 5.000 MW (projecao)
InvestimentoNao divulgado
LocalizacaoEldorado do Sul, regiao metropolitana de Porto Alegre
AguaNao divulgado consumo ou fonte
Licenca ambientalNenhuma
DiferencialPotencialmente o maior data center da America Latina

O projeto mais ambicioso em escala. Seus 5.000 MW projetados equivalem a aproximadamente 4% da capacidade instalada total do Brasil. A Scala e uma operadora brasileira estabelecida, mas nao publica PUE, WUE, fonte de agua ou cronograma detalhado. A escala levanta questoes sobre a capacidade da rede de transmissao gaucha e o impacto na Bacia do Guaiba.

Leia mais: Scala AI City — ficha completa · Comparativo RT-One vs Scala


Elea Rio AI City — Jacarepagua (RJ)

DadoValor
EmpresaElea
Capacidade1.500 MW a 3.200 MW
InvestimentoNao divulgado
LocalizacaoJacarepagua, Rio de Janeiro
AguaNao divulgado consumo ou fonte
Licenca ambientalNenhuma
DiferencialApoio dos governos federal e estadual

A Elea e considerada a operadora mais transparente do Brasil, com certificacao ISO 14001 e relatorio de sustentabilidade publicado — mas esses dados sao do seu portfolio existente, nao do Rio AI City. O apoio governamental diferencia este projeto dos demais, que dependem exclusivamente do licenciamento ambiental convencional.

Leia mais: Elea Rio AI City — ficha completa


Tabela comparativa

ProjetoEstadoCapacidade (MW)InvestimentoAgua (divulgado?)LicencaMPF
RT-One UberlandiaMG100–400R$ 6 bi2,77 L/s (potavel)NenhumaInquerito civil
RT-One MaringaPR400R$ 6 biAdmite GuaraniNenhumaInvestigacao
TikTok CaucaiaCE210–576N/DN/DRAS (contestado)Contestacao ativa
Scala AI CityRS1.800–5.000N/DN/DNenhumaNao
Elea Rio AI CityRJ1.500–3.200N/DN/DNenhumaNao

Total projetado: ate 9.576 MW — o equivalente a aproximadamente 5 usinas de Itaipu operando simultaneamente.


Padroes que os numeros revelam

1. Ninguem opera, todo mundo anuncia

Nenhum dos cinco projetos esta em operacao. Nenhum tem licenca ambiental definitiva. Todos usam o anuncio de investimento como ferramenta de pressao regulatoria e marketing politico. A RT-One e o caso mais visivel: anuncio em setembro de 2025, aval da prefeitura, negociacao com Cemig, mas zero avanco documentado no licenciamento ambiental estadual.

2. Agua e o ponto cego

Dos cinco projetos, apenas a RT-One Uberlandia divulgou volume concreto de consumo hidrico (2,77 L/s). A RT-One Maringa admitiu possibilidade de usar o Aquifero Guarani, mas sem volume. TikTok, Scala e Elea nao divulgaram consumo nem fonte — uma omissao critica em um pais onde crises hidricas sao recorrentes e atingem inclusive as regioes onde esses projetos se instalam.

Para escala: data centers de 400 MW com refrigeracao evaporativa podem consumir ate 20 milhoes de litros por dia — o equivalente ao abastecimento de uma cidade de 130 mil habitantes.

3. Licenciamento fragmentado

Cada estado tem seu proprio orgao ambiental (Semad em MG, IAT no PR, Semace no CE, Fepam no RS, Inea no RJ) com criterios diferentes. Nao existe padrao nacional para avaliar impacto de data centers. O resultado: o TikTok Caucaia conseguiu licenca via RAS em um estado, enquanto a PGR considera esse instrumento “inadequado” para a escala do projeto.

4. Transparencia zero ou quase zero

Nenhum dos cinco projetos publica PUE, WUE, inventario de carbono ou plano de gestao de residuos. A transparencia atual se limita a press releases de anuncio e entrevistas de executivos a veículos de tecnologia. Dados tecnicos que permitiriam comparacao objetiva simplesmente nao existem no dominio publico.

5. MPF como unico contrapeso

O Ministerio Publico Federal e, ate agora, a unica instituicao que faz perguntas tecnicas sobre a viabilidade ambiental desses projetos. O MPF instaurou inquerito em Uberlandia, investiga Maringa e contesta ativamente o licenciamento em Caucaia. Orgaos ambientais estaduais, por sua vez, ainda nao emitiram pareceres substantivos sobre nenhum dos projetos.


O que observar nos proximos meses

  1. Protocolo do pedido de LP da RT-One em Uberlandia. Se ocorrer no primeiro semestre de 2026, a Semad tera que definir se exige EIA/RIMA — a decisao mais importante para o cronograma do projeto.

  2. Desfecho do caso TikTok Caucaia. Se a Justica acatar o parecer da PGR e anular a licenca via RAS, o precedente forcara EIA/RIMA para todos os demais projetos.

  3. Audiencia publica em Uberlandia. A Camara Municipal ja realizou uma com baixa adesao institucional. A audiencia de licenciamento (se houver) tem peso legal diferente e pode definir condicionantes.

  4. Dados de agua e energia do Scala AI City. Se a Scala publicar estimativas de consumo para um projeto de 5.000 MW, o debate muda de escala.

  5. A LAI como ferramenta. Qualquer cidadao pode solicitar, via Lei de Acesso a Informacao, copias de estudos ambientais, pareceres tecnicos e condicionantes assim que os processos forem protocolados.


Conclusao: infraestrutura que o Brasil nunca viu, com regras que ainda nao existem

O Brasil esta entrando em um territorio onde nenhum pais em desenvolvimento entrou: hospedar infraestrutura de IA em escala de gigawatts. A oportunidade e real — empregos, receita tributaria, posicionamento estrategico na economia digital. Mas o risco tambem e real: consumo hidrico e energetico em regioes ja tensionadas, licenciamento fragmentado, transparencia zero e projetos que avancam mais rapido que a capacidade do Estado de fiscaliza-los.

O padrao internacional oferece referencias uteis. Singapura estabeleceu limites de PUE e WUE como condicao para novos data centers. A Uniao Europeia exige inventario de carbono e auditoria independente. O Brasil ainda nao tem nada comparavel.

A pergunta que fica nao e se o Brasil vai ter data centers de IA. E se vai te-los com regras claras, transparencia e governanca — ou se cada projeto sera uma caixa-preta negociada entre investidor e prefeitura, com a conta ambiental chegando depois.


Comparativos diretos

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Glossario


Fontes: IT Forum (set/2025, fev/2026), Mobile Time (fev/2026, abr/2025), Carta Maringa (jun/2025), IEA (2024), pareceres do MPF e PGR, sistemas publicos de licenciamento ambiental estaduais.

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).