Blog

239 mil litros de água por dia: 'não é nada', diz a prefeitura enquanto o Triângulo enfrenta seca

RT-One consumirá 239 mil litros de água diariamente. Autoridades minimizam impacto. Especialistas alertam: data centers pressionam recursos em regiões com crise hídrica.

5 min read opiniao rt-one agua ambiente uberlandia

239 mil litros por dia? “Menos que um condomínio”, dizem

A RT-One vai consumir 239.300 litros de água por dia. É como 2,77 litros por segundo, continuamente, todos os dias do ano.

A resposta da prefeitura é sempre a mesma, com variações: “não é significativo”, “representa menos de 1% da produção”, “é inferior ao consumo de um condomínio residencial grande”.

A matemática é simples e desconcertante. Eles estão certos tecnicamente. Uberlândia produz cerca de 2.600 litros de água por segundo; os 2,77 do RT-One são de fato uma fração.

O problema é que essa fração é contínua, garantida, comprometida. E é apenas o começo.


A matemática da minimização

Deixa a gente fazer as contas junto:

239.300 litros/dia do RT-One =

  • 87,3 milhões de litros por ano
  • Suficiente para abastecer uma casa por 239 dias

A prefeitura usa essa última comparação: “é como uma família de quatro pessoas”. Tecnicamente verdadeiro. Psicologicamente enganador.

Uma família de quatro usa água para beber, cozinhar, lavar, higiêne. Um data center usa água para uma coisa: resfriar equipamentos.

Aquela água entra gelada (ou é gelada, por mais energia) e sai quente. Ela não retorna ao sistema de abastecimento. Ela se evapora na atmosfera ou retorna degrada em qualidade.


O que a prefeitura não diz sobre o “pequeno consumo”

Nos documentos de aprovação da RT-One junto ao DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgoto), a prefeitura afirmou que o consumo “não impactará a produção de água tratada”.

Verdade. Não impacta em 2026, quando as chuvas ainda chegam. Mas e quando a seca vem? Quando os aquíferos caem? Quando a capacidade de 2.600 litros/segundo fica sob pressão?

Basta recordar:

A aprovação foi feita em condição de abundância. Quando vier a escassez, o RT-One já terá seus contratos garantidos.


Expandir de 100 MW para 400 MW? Multiplique a água também

O RT-One começa com 100 MW de potência e planeja expandir para até 400 MW.

Ninguém diz isso em voz alta, mas a lógica é óbvia: mais potência = mais calor = mais água para refrigeração.

Se 100 MW usam 239 mil litros/dia, o cenário de 400 MW não seria linear — refrigeração é mais eficiente em escala — mas também não seria o mesmo.

Multiplique por 3. Talvez 600-700 mil litros por dia no máximo investimento.

A prefeitura já aprovou 239 mil. Quanto você quer apostar que quando chegar a hora da expansão, haverá uma “pequena revisão” silenciosa?


Especialistas vs. Comunicados Oficiais

Enquanto a prefeitura minimiza, especialistas de universidades (Unesp, Unifesp) alertam publicamente: “data centers exercem pressão significativa sobre recursos hídricos, especialmente em regiões vulneráveis à seca”.

O comunicado foi emitido em março de 2026, após análise de programas de incentivo como Redata e Sudene que subsidiam data centers no Brasil.

A conclusão: governos estão atraindo data centers sem avaliar corretamente o impacto hídrico local.

Uberlândia é exatamente o oposto de um “local ideal” para um data center em termos de disponibilidade hídrica. Mas é ideal em termos de incentivos fiscais.


Consumo oculto: a água que ninguém menciona

O número oficial é 239 mil litros. Mas há água invisível:

  1. Construção: Milhões de litros durante a obra (concreto, limpeza, paisagismo)
  2. Manutenção paisagística: O terreno tem 300 mil m² reservados para preservação ambiental — precisam regar
  3. Consumo de operários: Centenas de pessoas trabalhando precisam beber, lavar as mãos
  4. Paisagismo corporativo: Porque uma empresa bilionária não vai deixar seus escritórios secos

O número oficial é 239 mil. O real é maior.


A timeline silenciosa

PeríodoAçãoO que dizem
2025Aprovação DMAE para 239 mil litros/dia”Não impacta”
2026 (atual)Começo das obras (previsto maio)Silêncio
2027-2028Expansão para 200-300 MW”Pequenos ajustes” (você vai ver)
2029+Possível expansão completa para 400 MW”Já estava aprovado”
2030+Crise hídrica previsível”Não era possível prever”

O custo real é pago depois

A prefeitura aprovou 239 mil litros sob a narrativa de “não impacto em tempos de normalidade”. É o clássico: projeta-se a melhor cenário, aprova em boas condições, problema vira realidade depois.

Quando (não se) a seca chegar forte, o RT-One terá seus contratos. Uberlândia terá que lidar com a pressão. Os moradores vão pagar mais na conta de água.

É o mesmo padrão de sempre: lucro privado, prejuízo público.


O que a gente não discute

Ninguém na prefeitura menciona que dados vazados da indústria mostram que data centers gastam mais água em refrigeração que em consumo humano. Uma política ambiental séria exigiria:

  • Auditoria independente do consumo real (não estimado)
  • Limite máximo de consumo com penalidades
  • Compensação ambiental real (não promessas de parques)
  • Cenários de crise hídrica incluídos na aprovação

Uberlândia fez nenhuma dessas coisas.


Fonte: Convergência Digital — Consumo de água; Jornal da Unesp — Especialistas alertam

Leia também:

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).