108,6 mm em 15 dias: o junho que Uberlândia nunca viu
Uberlândia registrou 108,6 milímetros de chuva até esta segunda-feira (16), superando com folga o antigo recorde para o mês de junho, que pertencia a 2016. O dado foi divulgado pelo G1 Triângulo Mineiro e confirma o que a população já sentia na pele: este é o junho mais chuvoso da história da cidade.
O volume é atípico para o Cerrado mineiro, onde junho costuma ser um dos meses mais secos do ano. A combinação entre um ciclone extratropical e a umidade vinda da Amazônia criou condições excepcionais para temporais persistentes — e os efeitos foram imediatos.
O que aconteceu no fim de semana
Entre sábado e domingo, Uberlândia viveu cenas que lembram mais o verão do que o início do inverno:
- Pessoas ilhadas em carros em vias tomadas pela água
- Casas e ruas alagadas em diversos bairros
- Queda de árvores em áreas residenciais
- Falta de energia em regiões da cidade
- Registros de granizo em pontos isolados
- Incêndio provocado por raio — sim, em meio à chuva
A Defesa Civil emitiu alerta amarelo para pancadas de chuva com risco moderado e pediu que a população evitasse vias sujeitas a alagamentos. Os telefones de emergência (199 para Defesa Civil, 193 para Bombeiros, 192 para SAMU) foram acionados diversas vezes.
Por que chove tanto em junho?
A explicação dos meteorologistas aponta para dois fatores simultâneos:
- Ciclone extratropical na costa sul do Brasil, que altera os padrões de pressão e direciona sistemas de baixa latitude para o interior.
- Umidade da Amazônia sendo transportada pelos jatos de baixos níveis — os chamados “rios voadores” — em volume acima da média para a estação.
A combinação é rara. Junho no Triângulo Mineiro costuma ter média histórica entre 10 e 20 mm. Chover 108,6 mm em 15 dias significa mais de cinco vezes o esperado para o mês inteiro.
O que isso tem a ver com o data center da RT-One
A chuva recorde expõe a fragilidade da infraestrutura urbana de Uberlândia — e levanta questões sobre projetos de grande porte que ainda não apresentaram estudos de impacto ambiental.
O data center da RT-One, previsto para uma área de 1 milhão de metros quadrados na zona rural oeste, próximo aos bairros Pequis e Monte Hebrom, ainda não possui EIA/RIMA. Sem o estudo, não há dados públicos sobre:
- Como a impermeabilização do solo vai alterar a drenagem natural da região
- Se os córregos próximos suportam volume adicional de escoamento superficial
- Qual o impacto em bairros que já sofrem com alagamentos em eventos extremos
A água consumida pelo data center — 239 mil litros por dia, autorizada pelo DMAE — é outra variável que se conecta ao ciclo hídrico local. Em um mês de chuva recorde, a pergunta se inverte: e quando a chuva faltar?
Cidades que crescem sem planejar pagam o preço na chuva
Uberlândia não é a única cidade do Triângulo a sofrer com eventos extremos. Mas a velocidade de crescimento urbano, combinada com grandes projetos industriais sem licenciamento ambiental completo, cria uma equação de risco.
Quando chove 108,6 mm em 15 dias em uma cidade que esperava 15 mm no mês inteiro, a infraestrutura de drenagem projetada para outra realidade não dá conta. Ruas viram rios. Carros viram ilhas. E a população descobre que o mês mais seco do ano pode ser o mais perigoso.
O marco normativo proposto pela UFU para data centers em Uberlândia aponta justamente para essa lacuna: a cidade precisa de regras que considerem o impacto cumulativo de grandes empreendimentos sobre o sistema hídrico — tanto na escassez quanto no excesso.
O que fazer em caso de alagamento
Enquanto a cidade processa o recorde, a Defesa Civil mantém as recomendações:
- Evite vias alagáveis — mesmo que pareçam rasas, 15 cm de água em movimento derrubam uma pessoa
- Não tente atravessar de carro — 30 cm de água levantam um veículo
- Desligue a energia se a água entrar em casa
- Acione a Defesa Civil (199) em caso de risco
- Busque abrigo em local elevado se estiver em área de risco
O alerta amarelo segue ativo. Junho ainda não acabou. E o recorde, infelizmente, ainda pode aumentar.
Fonte: G1 Triângulo Mineiro
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