Chuva forte, alerta amarelo, silêncio de R$ 6 bilhões
A Defesa Civil de Uberlândia emitiu alerta amarelo para pancadas de chuva com risco moderado. O aviso pede cuidado no trânsito, recomenda evitar vias sujeitas a alagamentos e lista telefones de emergência. O prefeito Paulo Sérgio (PP) compartilhou o alerta em seu Facebook, com emojis de chuva e sirene, demonstrando a preocupação de praxe.
Enquanto o prefeito posta sobre alagamentos, um projeto de 1 milhão de metros quadrados avança na zona rural oeste da cidade sem Estudo de Impacto Ambiental. O data center da RT-One, quando entrar em operação, vai impermeabilizar solo, consumir 239 mil litros de água por dia e alterar a drenagem de uma região próxima aos bairros Pequis e Monte Hebrom — justamente áreas que já sofrem com enchentes.
”Evite vias sujeitas a alagamentos”
A frase é do alerta compartilhado pelo prefeito. É um bom conselho. Mas o que a Defesa Civil não diz — e o prefeito não pergunta — é como fica a drenagem de uma área de 1 milhão de metros quadrados quando ela for coberta por concreto, servidores e estacionamentos.
O licenciamento ambiental do data center segue sem EIA/RIMA. Sem o estudo, ninguém sabe:
- Quanto da água da chuva que hoje infiltra no solo vai virar escoamento superficial.
- Se a capacidade de drenagem dos córregos da região suporta a carga adicional.
- Qual o impacto nos bairros vizinhos quando chover forte — como hoje.
A população do Pequis e do Monte Hebrom não foi consultada sobre nenhum desses pontos. Mas recebeu o alerta de chuva direitinho.
O que preocupa o prefeito (e o que não preocupa)
O post do alerta amarelo lista três telefones: Defesa Civil (199), Bombeiros (193) e SAMU (192). São números importantes. Mas faltam alguns que o prefeito nunca ligou:
- O número do processo do inquérito civil do MPF, aberto para apurar o licenciamento do data center.
- O número do parecer da UFU que apontou lacunas graves no marco normativo para data centers na cidade.
- O número de litros que o DMAE autorizou a RT-One a consumir — 239 mil por dia — enquanto a cidade enfrenta períodos de racionamento.
Preocupar-se com a chuva é legítimo. Mas a preocupação seletiva — aquela que aparece no feed e some quando o assunto é data center — não é cuidado. É marketing.
Tabela: o que o alerta diz versus o que omissão esconde
| Alerta da Defesa Civil | Omissão do data center |
|---|---|
| Evite vias alagáveis | 1 milhão de m² sem estudo de drenagem |
| Chuva com risco moderado | Sem EIA/RIMA para impacto hídrico |
| Proteção e segurança | Bairros Pequis e Monte Hebrom nunca consultados |
| Ligue 199 em emergência | MPF investiga e prefeitura não responde |
A tabela é simples. O contraste, também.
Gerador a diesel: a chuva não é o único risco
O alerta menciona risco moderado. Mas o data center prevê geradores a diesel de backup que, quando acionados, emitem poluentes sobre a mesma região que o prefeito pede para as pessoas se protegerem. A chuva passa. A emissão, não.
Além disso, o consumo de energia projetado para o data center — 400 MW na expansão — pressiona a mesma rede que a subestação dedicada da Cemig pretende sustentar com R$ 160 milhões. Quem paga essa conta, no fim, é o mesmo cidadão que recebe o alerta de chuva no celular.
O prefeito que posta alerta é o mesmo que não posta o data center
Desde fevereiro de 2026, quando o data center foi anunciado com FIEMG e Cemig em Belo Horizonte, o Facebook do prefeito acumulou posts sobre selo de transparência, creche no Pequis, programa de empreendedorismo e férias em Portugal. Zero linhas sobre a RT-One.
Agora, o prefeito posta alerta de chuva. A preocupação com o cidadão é bem-vinda. Mas a coerência exige que, junto com o telefone da Defesa Civil, venha uma resposta: o que a prefeitura está fazendo para garantir que o maior empreendimento da história da cidade não piore os alagamentos que o próprio prefeito pede para a população evitar?
O alerta é amarelo. A omissão é vermelha.
Fonte: Facebook — Paulo Sérgio
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