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Data Centers Verdes? A Ilusão Sustentável da IA em Uberlândia

Ascenty, Scala e RT-One prometem data centers 'verdes' enquanto Brasil quer ser 'oásis verde' da IA. Mas quem publica números? Energia vai dobrar até 2029. Prefeito segue em silêncio.

5 min read opiniao sustentabilidade rt-one prefeito paulo-sergio greenwashing uberlandia

O marketing da sustentabilidade bateu à porta de Uberlândia

“Hub verde de IA da América Latina.” “Data centers sustentáveis alimentados por energia renovável.” “Infraestrutura de ponta com pegada mínima de carbono.”

Essas frases aparecem em comunicados de Ascenty (US$ 1,2 bilhão em investimento em São Paulo), Scala (R$ 3 bilhões no Rio Grande do Sul), e claro, RT-One (R$ 6 bilhões em Uberlândia e Maringá). O Brasil quer virar o “oásis verde” para quem quer treinar inteligência artificial sem culpa ambiental. Mas quando se pede para ver os números — PUE, WUE, consumo de água, inventário de carbono — a resposta é sempre a mesma: silêncio.


”Verde” significa o quê, exatamente?

No discurso corporativo, “data center verde” é uma etiqueta sem peso. Sem contexto técnico, ela não passa de marketing. Eficiência real em data centers se mede em indicadores específicos que as próprias empresas não publicam.

PUE (Power Usage Effectiveness) é a razão entre energia total do prédio e energia entregue aos servidores. Quanto mais próximo de 1.0, melhor. Tier IV (padrão global) exige PUE abaixo de 1.15. Nenhum data center major no Brasil publica PUE auditado.

WUE (Water Usage Effectiveness) mede litros de água por kilowatt consumido. Sistemas com torres evaporativas consomem 1.5 a 2.0 L/kWh. Dry coolers, 0.0 a 0.1 L/kWh. RT-One declara “refrigeração líquida em circuito fechado” — mas não divulga WUE. Ascenty anunciou seus data centers como “verdes” sem um número de eficiência hídrica.

Carbono é invisível. A maioria das empresas anuncia “100% renovável” baseada em certificados (RECs) que não garantem que a eletricidade consumida vem de fonte limpa. Poucas publicam inventário de carbono Escopo 1, 2 e 3 — a última representa 70–90% da pegada real de um data center segundo a UNEP.

Sustentabilidade real se mede. Greenwashing se anuncia.


Quem não fala números, fala bonito

OperadorPublica PUE?Publica WUE?Publica carbono?
EleaParcialNãoNão
ScalaNãoNãoNão
AscentyNãoNãoNão
RT-OneNãoNãoNão

O operador mais transparente do Brasil é a Elea, que publica dados de energia e tem certificação ISO 14001. O resto? Anúncios, fotos de construção, promessas para 2030.

A Ascenty chamou sua expansão paulista de “aceleração para transformar Brasil em hub de data centers verdes”. Scala menciona “data center cidade sustentável”. Ambas sem PUE, sem WUE, sem auditoria independente.

RT-One fez o mesmo em Uberlândia. Nenhum documento público sobre eficiência energética. Nenhum relatório sobre origem da energia. A subestação dedicada da Cemig de R$ 160 milhões terá eletricidade de qual origem? A RT-One nunca respondeu.


Enquanto o prefeito segue mudo, a energia cresce

Aqui vem o número que ninguém quer ouvir:

Data centers no Brasil consumem hoje 1,7% da eletricidade total. Até 2029, essa fatia vai dobrar para 3,9%. Vai superar toda a iluminação pública do país, segundo análise do MIT citada pela Exame.

Globalmente, data centers consumiram 460 TWh em 2022. Projeções apontam para quase dobro até 2026, impulsionado por IA.

Em Uberlândia, o RT-One terá inicialmente 100 MW, com expansão para 400 MW. Operando 24/7, isso significa:

  • 877 GWh/ano em fase inicial (100 MW)
  • 3,5 TWh/ano em expansão completa (400 MW)

Para comparar: a demanda anual de uma cidade com 150 mil habitantes é de ~700 GWh. A expansão total do RT-One consumirá energia de cinco cidades do tamanho de Uberlândia.

Onde essa energia vem? Quem paga o upgrade da subestação? Como essa carga interage com a rede local em período de seca (quando hidrelétricas produzem menos)? O prefeito Paulo Sérgio, que se gaba de “transparência 97%”, nunca respondeu.


O vácuo entre “verde” e transparência

Se data centers são realmente verdes, por que não publicam PUE? Porque PUE real é constrangedor. A maioria opera entre 1.2 e 1.3 — bom, mas não excepcional. Anunciar “verde” sem números mantém a ilusão.

Se são alimentados por energia renovável, por que não especificam tipo de certificado (PPA ou REC)? Porque RECs (certificados) não garantem origem limpa — apenas que quantidade equivalente foi comprada em outro lugar.

Se o impacto hídrico é mínimo (como Brasscom alega globalmente), por que não publicam WUE? Porque concentração local importa. Em Uberlândia, em contexto de crise hídrica histórica, até “mínimo” é relativo.

A RT-One segue sem licença ambiental. Sem EIA/RIMA completo, ninguém pode auditoria as promessas de sustentabilidade. O vácuo regulatório é a perfeita incubadora para greenwashing.


Quando a IA ficar verde, quem paga a conta?

O Brasil quer virar o destino da IA global oferecendo energia “limpa” e “renovável”. Mas:

  1. Energia renovável certificada não significa descarbonização real (RECs vs. PPAs).
  2. Concentração hídrica local não é resolvida por estatísticas nacionais.
  3. Eficiência (PUE) não publicada não pode ser auditada.
  4. Isenções fiscais (REDATA) significam que o custo de infraestrutura fica com o município.

Uberlândia já está pagando: R$ 160 milhões em subestação. Consumo equivalente a cinco cidades. Carga em aquíferos e rede elétrica. Zero de debate público. Zero de EIA. Zero de resposta do prefeito que se diz “empreendedor”.

O marketing de sustentabilidade é uma aposta que ninguém questionará os números — porque não há números a questionar.


Leia também:


Fonte: Exame, IT Forum, Teletime, MIT Technology Review, relatórios de sustentabilidade corporativos, UNEP, Uptime Institute.

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).