O Número Mágico que Não Engana Ninguém
O data center RT-One em Uberlândia consome 239 mil litros de água por dia. Para quem quer parecer sustentável, existe um número bem menor: 0,05 L/kWh. É o critério de “eficiência hídrica” do Redata, programa de incentivos fiscais federais que a RT-One usa para justificar sua isenção de impostos por cinco anos. No papel, está tudo certo. Na prática, é o truque clássico da estatística verde.
Publicações especializadas aplaudem a “eficiência”: a Brasscom, associação de empresas de tecnologia, divulga estudos afirmando que data centers consomem “3 mil vezes menos água que a indústria”. Somado ao discurso de “matriz renovável” e “refrigeração eficiente”, a narrativa fica bonita. O problema é que ela confunde eficiência relativa com impacto absoluto.
A Conta que Não Fecha
A métrica do Redata (WUE = 0,05 L/kWh) mede quantos litros de água são usados por quilowatt-hora de energia gerada. É uma razão. O RT-One, com seus 100 MW iniciais, atende esse critério. Mas vamos aos números reais:
239 mil litros por dia = 2,77 litros por segundo. Contínuo.
Para contextualizar: um centro de dados típico consome entre 3 e 5 milhões de litros por dia, segundo a Agência Internacional de Energia. O RT-One está na faixa baixa apenas porque ainda não está em plena operação (expansão prevista para 400 MW).
A ironia mora aqui: o critério de “eficiência” permite que um projeto consuma 2,77 litros por segundo de uma região que já sofre pressão hídrica e ainda assim seja classificado como “ambientalmente sustentável”. A palavra “eficiência” virou um passaporte para o desperdício em escala.
Quando o Incentivo Fiscal Recompensa a Contradição
O Redata exige WUE ≤ 0,05 L/kWh como pré-requisito para isenção fiscal de 5 anos. A RT-One atende a exigência. Por isso, está isenta de impostos federais e recebe crédito fiscal de ICMS em Minas Gerais.
Mas vamos pensar no que o programa realmente incentiva: a construção de data centers cada vez maiores em regiões com recursos hídricos vulneráveis, desde que usem tecnologia eficiente. É quase um paradoxo de política pública. Sim, a refrigeração é eficiente. Sim, o consumo por unidade de processamento é baixo. Mas o consumo total segue sendo colossal.
Especialistas da Unesp alertam que esse incentivo, combinado com a demanda crescente de IA, pode pressionar aquíferos e reservatórios em regiões já em estresse hídrico. Uberlândia está no Triângulo Mineiro, região historicamente seca. O RT-One não vai provocar a crise hídrica da região—mas vai contribuir para uma cidade que já enfrenta restrições de água em períodos de seca.
A Tabela da Contradição
| Métrica | Valor | Status |
|---|---|---|
| WUE (Redata) | 0,05 L/kWh | ✅ Aprovado |
| Consumo diário | 239 mil litros | 2,77 L/s contínuos |
| Consumo anual | ~87 milhões de litros | Equivale a ~1.450 piscinas olímpicas |
| Consumo ao expandir para 400 MW | ~950+ mil litros/dia | Estimado (4x o consumo atual) |
| Isenção fiscal (5 anos) | R$ ? (nunca divulgado) | Incentivo federal + estadual |
O Redata aprova porque a métrica está correta. A prefeitura celebra porque “traz progresso”. O setor aplaude porque investe em tecnologia “limpa”. E Uberlândia fica com o consumo.
O Truque da Eficiência Relativa
Aqui está a mágica: você não faz o consumo desaparecer. Você o divide por uma unidade maior. Se um data center processa 100 bilhões de operações por dia e consome 239 mil litros, a “eficiência” é espetacular quando expressa em L/operação. Mas quando você sai da análise comparativa e olha para o rio, para o aquífero, para a conta de água da prefeitura, o número não diminui.
É como dizer que um carro consome menos gasolina por quilômetro que um ônibus—verdade, estatisticamente—e usar isso para aprovar garagens gigantescas em cidades com combustível racionado.
Fechamento
O data center RT-One vai estar em conformidade legal e regulatória. Vai atender critérios internacionais de eficiência hídrica. E mesmo assim, vai bombar 239 mil litros de água por dia de um aquífero regional que já tem histórico de pressão. O Redata não proibiu nada disso. Só tornou viável aprovando a métrica certa e ignorando a magnitude errada.
A “eficiência” virou um certificado que permite o consumo em escala. O verdadeiro problema não é que o RT-One seja ineficiente. É que a eficiência deixou de ser um limite e virou um argumento de marketing.
Fonte: Brasscom, Unesp, Agência Internacional de Energia, Convergência Digital, Redata, DMAE Uberlândia
Leia também: