Resumo Executivo: A RT-One planeja um data center de até 400 MW em Uberlândia, com investimento de R$ 6 bilhões. O projeto não tem licença ambiental, tramita sob inquérito civil do MPF e a empresa admitiu a possibilidade de captação do Aquífero Guarani — cenário não descartado em Uberlândia.
O que é o projeto RT-One em Uberlândia? Empresa registrada em dezembro de 2024, sem operações prévias comprovadas no setor. Anunciou R$ 6 bilhões para um data center de até 400 MW em 1 milhão de m² na região Oeste de Uberlândia. Consumo energético projetado: equivalente a 1,6 milhão de residências.
TL;DR — O que você precisa saber
- Empresa: RT-One, registrada em dezembro/2024 em SP, CEO Fernando Palamone. Sem histórico operacional comprovado em data centers.
- Investimento: R$ 6 bilhões (US$ 1,2 bi) anunciados; captação de R$ 15 bi liderada pela Hitachi.
- Capacidade: 100 MW na 1ª fase, expansão para 400 MW (equivalente a 1,6 milhão de casas).
- Água: 2,77 L/s (239,3 mil litros/dia) via DMAE, mas empresa admite possibilidade de uso do Aquífero Guarani.
- Energia: Subestação dedicada da Cemig em negociação; sem autorização específica do ONS.
- Licença ambiental: NÃO EXISTE. Projeto sem LP, LI ou LO da Semad/FEAM-MG.
- MPF: Inquérito civil instaurado para apurar danos ambientais.
- Audiência pública (26/03/2026): Prefeitura e presidente da RT-One não compareceram.
1. Consumo de Água — Números, Fonte e Disputas
A empresa declara refrigeração líquida em circuito fechado com PUE-alvo abaixo de 1,2. Especialistas da UFU questionam se essa métrica reflete o impacto real sobre recursos hídricos regionais — o PUE não mede consumo de água.
| Item | Dado divulgado |
|---|---|
| Vazão solicitada ao DMAE | 2,77 L/s |
| Equivalente diário | 239,3 mil litros/dia (≈239,3 m³/dia) |
| Equivalente mensal | ≈7.180 m³/mês |
| Consumo per capita Uberlândia | 259 L/hab./dia (pico de 320,4 L/hab./dia em 2023) |
| Capacidade conjunta das 3 ETAs | ≈2.600–4.000 L/s |
| Mananciais sob responsabilidade do DMAE | Sucupira, Bom Jardim e Capim Branco |
| Sistema de resfriamento declarado | Refrigeração líquida em circuito fechado |
Posição do DMAE (autarquia municipal)
O parecer técnico do DMAE aprovou a viabilidade: pedido “não trará impacto na produção de água tratada” e “não entraria no rol das dez primeiras consumidoras”. Prefeito Paulo Sérgio (PP), em 23/02/2026: “Consumirá menos do que um conjunto habitacional de 300 casas”.
Posição do IGAM-MG
Ainda não há outorga de uso de recursos hídricos divulgada pelo IGAM-MG. Como o terreno está em zona rural, fora do perímetro urbano, o IGAM seria acionado se houvesse captação direta de corpo hídrico ou de poço subterrâneo — caminho que a RT-One admitiu publicamente para o projeto gêmeo de Maringá (PR), incluindo o Aquífero Guarani, com retorno da água ao subsolo via trocadores de calor. Em Uberlândia, esse cenário não foi formalmente descartado.
Análises de especialistas
“Algo é ‘sustentável’ em relação a algum parâmetro de referência, por exemplo uma tecnologia mais antiga e com menor eficiência. Entretanto, isso não significa que não exista impacto.” — Lourenço Galvão Diniz Faria, economista pela UFU e consultor em transição energética
“Em um cenário de intensificação das mudanças climáticas, com maior frequência de secas severas e eventos climáticos extremos, a presença de consumidores intensivos de água pode agravar pressões já existentes sobre os recursos hídricos.” — Daniel Caixeta Andrade, Instituto de Economia/UFU
Dado importante: Uberlândia caiu 10 posições no Ranking do Saneamento 2026 do Instituto Trata Brasil (de 11ª para 21ª, pior resultado da série histórica), com investimento de apenas R$ 69,89/habitante (versus R$ 225/habitante recomendados pelo Plansab). Bairros vizinhos ao terreno — Pequis, Monte Hebrom e Chácaras Douradinho — já enfrentam restrições hídricas.
2. Consumo de Energia — 100 MW Iniciais, 400 MW Projetados
| Item | Dado divulgado |
|---|---|
| Capacidade contratada (1ª fase) | 100 MW |
| Capacidade máxima projetada | 400 MW (expansão futura) |
| Consumo diário estimado (400 MW) | ≈9,6 GWh/dia |
| Equivalente residencial | Até 1,6 milhão de casas |
| Consumo industrial de Uberlândia (2020) | 547.808 MWh (Cemig) |
| Consumo comercial de Uberlândia (2020) | 384.745 MWh (Cemig) |
Subestação dedicada
O secretário municipal Fabiano Alves confirmou ao Mobile Time (27/02/2026) que a RT-One está em “etapa final de negociação com a Cemig para instalar uma subestação dedicada” que não consumirá da mesma rede atendida à população. As obras de duas novas subestações da Cemig em Uberlândia (R$ 160 milhões, +50% de capacidade) já estavam previstas independentemente do data center.
Posição da Cemig
Respondendo ao MPF, a Cemig afirmou que “o sistema elétrico regional apresenta condições técnicas adequadas para absorver a carga adicional”. Porém, ressaltou que “o impacto de desabastecimento energético ou hídrico em nível nacional não é de sua responsabilidade”.
Posição do CEO da Cemig
“Para o Brasil ser de fato protagonista na transição energética, precisamos atrair demanda de indústrias intensivas em energia renovável. Precisamos incentivar data centers a virem para o Brasil.” — Reynaldo Passanezi Filho, CEO da Cemig, janeiro/2026
Ressalva: Não há autorização específica do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) para o data center da RT-One em Uberlândia nas peças públicas obtidas. A aprovação da Cemig é técnica e administrativa, não regulatória federal.
3. Licenciamento Ambiental — Situação Real
Status (maio/2026): Nenhuma licença ambiental (LP — Prévia, LI — Instalação, ou LO — Operação) havia sido emitida. O projeto encontra-se em fase de pré-licenciamento.
Órgão competente
Por estar em zona rural, fora do perímetro urbano, o licenciamento é estadual. A Reforma Administrativa de Minas Gerais (Lei Estadual nº 24.313/2023) extinguiu as Suprams, transferindo a competência para a Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM), vinculada à Semad. Outorgas hídricas continuam com o IGAM (corpos d’água estaduais) ou ANA (federais).
Estudos exigíveis
Pelo porte (R$ 6 bi, 100–400 MW, 1 milhão de m²), o caminho técnico mais provável é o EIA/RIMA com audiência pública (prazo de até 12 meses pela Lei Estadual 21.972/2016). Alternativas como RAS (Relatório Ambiental Simplificado) seriam, segundo especialistas, “inadequadas, insuficientes e inadmissíveis” para empreendimentos desta escala — conforme laudo da PGR no caso do data center do TikTok em Caucaia/CE.
Cronograma
- Apresentação do projeto arquitetônico: 20/02/2026
- Expectativa de início das obras: maio de 2026 (condicionada às licenças)
- Cada módulo: até 12 meses para construção
4. Ações Regulatórias e Judiciais
Inquérito Civil do MPF
O Ministério Público Federal instaurou inquérito civil em Uberlândia para apurar possíveis danos ambientais. Cita demanda equivalente a “1,6 milhão de casas” e o fato de a RT-One ter admitido em Maringá a captação do Aquífero Guarani. Segundo reportagem do Aos Fatos (17/03/2026), não há resposta da RT-One nos documentos públicos do inquérito; apenas a Cemig respondeu.
Audiência Pública na Câmara Municipal (26/03/2026)
Convocada pela vereadora Amanda Gondim (PSB) e Liza Prado (MDB). Conforme ata oficial:
- Ausências marcantes: nem o presidente da RT-One nem representantes da Prefeitura compareceram. A empresa enviou apenas o advogado Dr. Danilo.
- Vereador Dr. Igino (PT): “100 mil pessoas moram em áreas irregulares, sem acesso a água, energia e saneamento básico, como serão direcionados esses recursos para o Data Center?”
- Profª Dra. Naiara Vilela (UFU/Direito): defendeu desenvolvimento que considere “a questão ambiental para as presentes e futuras gerações”.
- Luana Leite (CRBio-04): alertou para poluição sonora, alto consumo elétrico-hídrico e crise hídrica do Triângulo Mineiro; invocou Princípio da Precaução.
- Frei Rodrigo (CNBB): criticou Redata como “isenção de tributos federais por 5 anos”.
- Vereadora Amanda Gondim: “não existe Data Center sustentável” e denunciou “lacuna legislativa”.
Proposta Legislativa UFU/Câmara
Estudantes do 3º período da Faculdade de Direito da UFU, sob orientação da profª Naiara Vilela, redigiram em março/2026 um marco normativo municipal para regular a sustentabilidade de data centers em Uberlândia. A proposta busca “equilibrar a atração de investimentos tecnológicos com a proteção do meio ambiente”.
MPMG: Até o fechamento desta pesquisa, não há registro público de procedimento estadual instaurado pelo Ministério Público de Minas Gerais sobre o caso.
5. Perfil da RT-One e Riscos Reputacionais
| Item | Informação |
|---|---|
| Registro | Dezembro/2024, São Paulo, Vila Ipojuca |
| CEO | Fernando Palamone |
| Histórico operacional | Nenhum comprovado no setor de data centers |
| Projetos anunciados | Uberlândia (MG) e Maringá (PR) |
| Captação financeira | R$ 15 bilhões anunciados, liderada pela Hitachi |
| Parceiros listados | Hitachi, WEG, Siemens, Vertiv, Schneider Electric, Engemon, Multiway, Munters, Supermicro |
Histórico do CEO Fernando Palamone
Residente nos EUA há quase três décadas, com histórico declarado em IBM, Cisco, Citrix, PDF Solutions e Intel. Em agosto de 2024, conforme apurou o Aos Fatos junto à própria Intel, Palamone foi falsamente representado como COO/VP da Intel ao assinar carta de intenções para um data center com o governo do Distrito Federal. A Intel, em nota oficial, declarou: “Ele não é COO da Intel Corporation e nunca foi”.
Contradição: A RT-One se autodescreve como "multinacional norte-americana", mas foi registrada apenas em dezembro de 2024 e não possui operações prévias comprovadas. O site oficial lista apenas dois empreendimentos, ambos em construção.
6. Localização Exata e Contexto Local
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Endereço | Rodovia MGC-497, região Oeste, zona rural |
| Área total | 1.000.000 m² (1 km²) |
| Campus de data center | 630.000 m² |
| Área de Preservação Permanente (APP) | 300.000 m² |
| Área construída (modular) | 245.000 m² |
| Bairros vizinhos | Pequis, Monte Hebrom, Chácaras Douradinho |
Outros projetos em negociação
Segundo o prefeito Paulo Sérgio e o Diário do Comércio (fevereiro/2026), existem conversações com Alibaba Cloud (China) e mais duas multinacionais — totalizando até 4 projetos de data center em Uberlândia.
7. Comparações Nacionais
| Projeto | Local | Capacidade | Status ambiental |
|---|---|---|---|
| RT-One Uberlândia | Uberlândia (MG) | 100–400 MW | Sem licença; pré-licenciamento |
| RT-One Maringá | Maringá (PR) | 400 MW | Admite uso do Aquífero Guarani; MPF-PR investiga |
| TikTok/Casa dos Ventos | Caucaia (CE) | 210–576 MW | Licenciado por RAS — contestado pelo MPF-CE |
| Scala AI City | Eldorado do Sul (RS) | 1.800–5.000 MW | Em licenciamento |
| Rio AI City (Elea) | Jacarepaguá (RJ) | 1.500–3.200 MW | Apoio federal e estadual |
8. Cronologia Regulatória
- Jan/2025: Anúncio em Maringá (PR), R$ 6 bi, com Intel mencionada equivocadamente.
- 08/07/2025: Anúncio oficial em Uberlândia.
- 09/09/2025: Aquisição do terreno oficializada (cerimônia com prefeitura e parceiros).
- 24/09/2025: Anúncio público detalhando o terreno na MGC-497.
- 17/03/2026: Reportagem do Aos Fatos revela inquérito civil do MPF e histórico falsificado de Palamone na Intel.
- 18/03/2026: Ranking Trata Brasil 2026 — Uberlândia cai 10 posições em saneamento.
- 23/02/2026: Coletiva FIEMG-Prefeitura em BH; Cemig confirma viabilidade dos 100 MW; DMAE confirma viabilidade dos 2,77 L/s.
- 24/02/2026: 1ª reunião na Câmara, parceria UFU/Direito + vereadora Amanda Gondim.
- 26/03/2026: Audiência pública na Câmara — sociedade civil critica; Prefeitura e RT-One ausentes.
- Abril–Maio/2026: Protocolo de licenciamento ambiental na Semad/FEAM aguardado.
9. Perguntas Frequentes (FAQ)
Quanto de água o data center da RT-One em Uberlândia vai consumir?
O consumo declarado de água potável é de 2,77 litros por segundo (L/s), equivalente a 239.300 litros por dia (≈7.180 m³/mês). No entanto, esse número refere-se apenas à fase 1 (100 MW) e ao consumo via rede pública. Não inclui eventual captação subterrânea adicional para refrigeração — caminho que a empresa admitiu publicamente no projeto gêmeo de Maringá (PR), incluindo o Aquífero Guarani.
O data center da RT-One já tem licença ambiental?
Não. Até maio de 2026, nenhuma licença ambiental (LP, LI ou LO) havia sido emitida pelo órgão competente. O projeto está em fase de pré-licenciamento junto à Semad/FEAM-MG (Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais). Como está em zona rural, fora do perímetro urbano, o licenciamento é estadual e provavelmente exigirá EIA/RIMA com audiência pública.
Quanto de energia elétrica o data center vai consumir?
A capacidade contratada inicial é de 100 MW, com expansão projetada até 400 MW. Operando a plena carga, 400 MW por 24 horas equivalem a aproximadamente 9,6 GWh/dia — o consumo de até 1,6 milhão de residências brasileiras. Para comparação local: todo o setor industrial de Uberlândia consumiu 547.808 MWh em 2020, segundo dados da Cemig.
Qual é a localização exata do data center?
O terreno fica na região Oeste de Uberlândia, às margens da rodovia MGC-497 (acesso entre Uberlândia e Prata-MG), em zona rural fora do perímetro urbano. A área total é de 1.000.000 m² (1 km²), sendo 630.000 m² para o campus de data center e 300.000 m² declarados como Área de Preservação Permanente (APP).
Existe alguma ação judicial contra o projeto?
Sim. O Ministério Público Federal (MPF) instaurou inquérito civil em Uberlândia para apurar possíveis danos ambientais. O inquérito cita a demanda energética equivalente a 1,6 milhão de casas e o fato de a RT-One ter admitido em Maringá a captação de água do Aquífero Guarani. Não há registro público de procedimento estadual pelo MPMG. Até o fechamento desta pesquisa, não havia ação civil pública ou liminar contra o projeto.
Quem está fiscalizando o projeto?
Além do MPF, a oposição organizada inclui: Câmara Municipal (vereadora Amanda Gondim/PSB), Faculdade de Direito da UFU (profª Naiara Vilela), Pastoral da Terra/CNBB (Frei Rodrigo), Conselho Regional de Biologia (CRBio-4ª Região), e movimentos sociais como Movimento Negro Unificado, Somos Rio e Unidade Popular.
Por que o argumento de “239 mil litros/dia é pouco” é contestado?
Por três razões principais: (1) o número refere-se apenas à fase 1 (100 MW) e ao consumo via rede potável, não incluindo captação subterrânea; (2) não há métrica WUE (Water Usage Effectiveness) pública que distinga captação de consumo efetivo; (3) outros 3 data centers em negociação em Uberlândia podem multiplicar o impacto regional sobre o Aquífero Bauru/Guarani e os mananciais Sucupira/Bom Jardim/Capim Branco.
10. Recomendações para Cidadãos, Jornalistas e Pesquisadores
Curto prazo (8 semanas)
- Monitorar SIAM-MG e Semad/FEAM-MG para protocolo de licenciamento.
- Exigir enquadramento como EIA/RIMA, não RAS — precedente: laudo da PGR no caso TikTok/Caucaia (CE).
Médio prazo
- Acompanhar projeto de lei municipal UFU/Câmara: WUE máximo obrigatório, PUE auditado, relatório mensal público de consumo.
- Pressionar IGAM-MG a emitir posição pública sobre captação do Aquífero Bauru/Guarani.
- Solicitar à ANEEL/ONS divulgação dos estudos de fluxo de potência.
Longo prazo
- Exigir moratória regional sobre licenciamentos até existir estudo cumulativo de impacto no Triângulo Mineiro.
Gatilhos para ação civil pública: recomendação do MPF ao Estado/MG; Semad/FEAM optando por RAS em vez de EIA/RIMA; pedido de outorga subterrânea ao IGAM; confirmação de cliente-âncora estrangeiro em modelo ZPE.
Ressalvas e Lacunas de Informação
- Número do inquérito civil do MPF e nome do procurador não constam das peças públicas obtidas.
- Parecer integral do DMAE, estudo Cemig–RT-One e proposta legislativa da UFU não foram disponibilizados publicamente.
- RT-One nega irregularidades.
- Previsões de início de obras (maio/2026), expansão para 400 MW e certificações são projeções, não fatos.
- Mobile Time publicou “kW” em vez de “MW” em fevereiro/2026.
- Cálculo de “1,6 milhão de casas” assume 100% de utilização 24h; estimativa técnica real: 70–85%.
11. Comparativos Relacionados
Veja como o projeto RT-One se compara a outros data centers no Brasil:
- RT-One vs TikTok/Casa dos Ventos (Caucaia-CE): Dois data centers, dois destinos regulatórios. Um sem licença, outro licenciado por RAS — ambos sob investigação do MPF.
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