O prefeito está em Portugal. A omissão, em Uberlândia.
O prefeito Paulo Sérgio (PP) publicou em seu Facebook um relato entusiasmado da viagem de férias a Portugal. Na postagem, intitulada “COMPROMISSO COM UBERLÂNDIA EM QUALQUER LUGAR!”, ele conta que se reuniu com o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, e com o embaixador do Brasil em Lisboa, Raimundo Carreiro. Tudo em nome do “Avança Uberlândia”.
Enquanto o prefeito abria portas em Lisboa, uma porta de R$ 6 bilhões permanecia escancarada em casa: o data center da RT-One, projeto que avança sem licença ambiental, sem EIA/RIMA e sem que o chefe do Executivo municipal tenha dedicado uma linha sequer a responder às perguntas da população.
”A mente está sempre voltada para buscar novas oportunidades”
A frase é do prefeito. Ele a escreveu de Portugal, onde cumpre “agendas importantes para o futuro da nossa cidade”.
Vamos às agendas que ele não cumpriu em Uberlândia:
- 26 de março de 2026: a Câmara Municipal realizou audiência pública sobre o data center. O prefeito não compareceu. A prefeitura não enviou representante. A RT-One mandou só o advogado.
- Fevereiro a maio de 2026: o MPF abriu inquérito civil para apurar o licenciamento do data center. O prefeito não se manifestou.
- Desde setembro de 2025: a população pergunta sobre consumo de água, impacto no Aquífero Guarani, contrapartidas fiscais, empregos reais. Silêncio.
Abrir portas em Lisboa é louvável. Mas as portas que já estão abertas em Uberlândia — e pelas quais passa um data center de 400 MW sem debate público — não parecem merecer a mesma atenção.
Ponte entre Lisboa e… onde mesmo?
Na postagem, o prefeito escreve:
“Essas agendas são pontes importantes para o nosso Avança Uberlândia. Trocar experiências com lideranças internacionais nos permite conhecer e trazer tecnologias e soluções que já funcionam fora do Brasil para a realidade da nossa gente.”
Qual tecnologia, exatamente, Lisboa pode ensinar a Uberlândia sobre data centers? A cidade portuguesa não é um hub de hiperescala. Não tem 400 MW de carga de IA em zoneamento rural. Não licencia projetos sem EIA/RIMA.
Mas o prefeito não precisa ir longe para aprender. Uberlândia já tem dentro de casa — na UFU — um corpo técnico que produziu parecer crítico ao projeto. O marco normativo publicado pela universidade aponta lacunas graves no licenciamento. O prefeito não respondeu. A ponte com a academia local segue sem tráfego.
Enquanto o prefeito posa com o embaixador
A postagem menciona o “diálogo produtivo” com o embaixador Raimundo Carreiro e um encontro na Residência Oficial. Diplomacia é importante. Mas desde que o data center foi anunciado:
- A Cemig negocia uma subestação dedicada de R$ 160 milhões — sem esclarecer quem paga.
- A RT-One segue sem licença ambiental, operando numa zona cinzenta entre o licenciamento municipal e estadual.
- O consumo de água e energia projetado equivale a centenas de milhares de residências.
- A população dos bairros Pequis e Monte Hebrom não foi consultada.
Nenhum desses itens apareceu na agenda portuguesa do prefeito. Talvez porque não rendam foto.
”O trabalho não para!”
A frase fecha a postagem com a energia de quem está muito ocupado. E de fato: entre Lisboa, embaixada e Câmara Municipal, a agenda é cheia.
Mas o trabalho que parou merece destaque:
- Parou a comunicação com a imprensa local sobre os detalhes do licenciamento.
- Parou a interlocução com o MPF — o inquérito civil segue sem respostas do Executivo.
- Parou o debate público — a audiência de março foi um monólogo de ausências.
- Parou a transparência — os contratos, isenções e contrapartidas seguem fora do alcance do cidadão.
O trabalho não para. Só muda de endereço.
O que Uberlândia gostaria de ouvir
Já que o prefeito está com a mente “sempre voltada para buscar novas oportunidades”, aqui vão algumas oportunidades que não exigem passaporte:
- Convocar uma audiência pública com a presença do Executivo municipal.
- Exigir EIA/RIMA completo antes de qualquer licença.
- Publicar os termos do acordo com a RT-One — isenções, prazos, contrapartidas.
- Responder ao MPF com dados, não com silêncio.
- Pisar no bairro Pequis e explicar aos moradores o que significa um data center de 400 MW na vizinhança.
Nenhuma dessas agendas exige reunião com embaixador. Todas exigem reunião com o povo.
Abrir portas ou fechar os olhos?
O prefeito tem o direito de tirar férias. Tem o dever de representar a cidade. Mas a conta não fecha quando o “compromisso com Uberlândia em qualquer lugar” não inclui o lugar onde as decisões estão sendo tomadas — dentro do próprio município.
Enquanto Paulo Sérgio posa para fotos em Portugal, o data center da RT-One avança em silêncio. Sem debate. Sem transparência. Sem prefeito.
A porta que ele deveria estar vigiando já foi aberta. E ninguém sabe o que está entrando.
Fonte: Facebook — Paulo Sérgio
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