97,1% de transparência. Menos o data center.
Em 24 de fevereiro de 2026, o prefeito Paulo Sérgio (PP) publicou em seu Facebook uma celebração inflamada: Uberlândia conquistara o Selo Diamante de transparência pública pelo segundo ano consecutivo. Nota 97,1%. Maior índice entre todas as prefeituras de Minas Gerais. O post enumerava as virtudes da gestão: respeito ao dinheiro público, canais de acesso à informação, gestão moderna e ética.
“Transparência de verdade é o nosso compromisso com você”, finalizava.
No dia anterior — 23 de fevereiro — o mesmo prefeito participara em Belo Horizonte de uma coletiva conjunta com FIEMG, Cemig e RT-One para anunciar o maior projeto da história do município: um data center de IA de R$ 6 bilhões, com consumo de 400 MW e subestação dedicada de R$ 160 milhões.
A coletiva não foi mencionada no Facebook do prefeito. Nem no dia 23. Nem no dia 24. O silêncio sobre o data center contrasta com o troféu de transparência erguido no post seguinte.
O que o Selo Diamante mede
O selo avalia dados abertos sobre obras, contratos e despesas no Portal da Transparência. É uma métrica importante. Ninguém questiona o índice.
Mas transparência não é só portal. É prestação de contas sobre as decisões que afetam a cidade.
Se aplicarmos os critérios do selo ao projeto RT-One, o resultado seria outro:
| Critério do selo | Aplicado ao data center |
|---|---|
| Dados sobre obras | Sem EIA/RIMA, sem cronograma público detalhado |
| Contratos abertos | Termos do acordo com a RT-One nunca foram publicados |
| Despesas atualizadas | Isenção fiscal via Redata sem valores divulgados |
| Acesso à informação | Audiência pública sem a presença do Executivo |
Daria 0%. Ou menos, se possível.
O que o prefeito não publicou
Entre 23 de fevereiro (anúncio do data center) e hoje, o Facebook do prefeito ignorou completamente o projeto RT-One. Nenhuma linha sobre:
- Como a subestação de R$ 160 milhões da Cemig será custeada e por quem.
- Se o consumo de 239 mil litros de água por dia compromete o abastecimento dos bairros Pequis e Monte Hebrom.
- Por que o projeto avança sem licença ambiental e sem EIA/RIMA.
- Quantos empregos permanentes serão gerados e para quem.
- Quais contrapartidas foram exigidas em troca da isenção fiscal de 5 anos.
Enquanto isso, no feed: selfies em Portugal, lançamento de programa de empreendedorismo, obras de creche. Tudo muito transparente. Só o data center que não.
”Confiar para crescer”
A frase está no post do Selo Diamante. O prefeito argumenta que uma cidade transparente atrai mais investimentos.
O problema é que o maior investimento já anunciado em Uberlândia chegou sem transparência. A cidade atraiu R$ 6 bilhões. Mas ninguém sabe:
- Quanto desse valor é dinheiro que deixa de entrar nos cofres públicos via isenção fiscal.
- Qual o custo real da infraestrutura que a Cemig vai bancar — e repassar à tarifa.
- Qual o impacto ambiental de um complexo de 1 milhão de metros quadrados na zona rural do Pequis.
Atrair investimento é bom. Atrair sem saber o preço é aposta. E aposta com dinheiro público, sem divulgar as regras, não combina com Selo Diamante.
A pergunta que o post não responde
O prefeito encerra o post do Selo Diamante com um convite: “Quer conferir de perto? É só pesquisar ‘Portal da Transparência Uberlândia’.”
Fica a sugestão de busca complementar: “RT-One contrato Prefeitura Uberlândia”.
Se encontrar, avise. O prefeito provavelmente também está procurando.
Fonte: Facebook — Paulo Sérgio
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