O sorriso e o silêncio
No dia 9 de julho de 2025, o apresentador da emissora local da Rede Globo abriu o sorriso largo de quem anuncia a chegada do progresso. Data center de inteligência artificial em Uberlândia. Aporte bilionário. Empresa americana. Dois mil empregos. Tudo embalado num texto que parecia press release da RT-One relido em voz alta.
No dia 2 de julho de 2026, uma quinta-feira, às 10h da manhã, a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais realizou audiência pública sobre os impactos ambientais desse mesmo data center. Pesquisadores, moradores e parlamentares debateram o que a Globo não mencionou em julho do ano anterior: ausência de licença, consumo de água, pressão energética, vácuo regulatório.
A Globo não noticiou a comissão. O sorriso seletivo do apresentador funcionou uma vez. Na outra, a câmera se desligou.
”O que é um Data Center?” — a pergunta que a matéria não soube responder
O texto da G1 inclui, com a delicadeza de uma enciclopédia infantil, uma caixa explicativa: “O que é um Data Center?”. Define: “instalação física projetada para abrigar sistemas computacionais de processamento, armazenamento e gerenciamento de dados.”
A jornalista explicou o que é um data center. Não explicou o que é o data center da RT-One. Não perguntou por que ele avança sem licença ambiental. Não perguntou por que não há EIA/RIMA. Não perguntou quem paga a subestação de R$ 160 milhões da Cemig. Não perguntou de onde sai a energia limpa quando os geradores a diesel de backup entram em operação.
Definiu o dicionário. Esqueceu a reportagem.
Dois mil empregos: o número que nasceu pronto
A matéria repete, sem questionar, a cifra mágica: “cerca de 2 mil empregos permanentes, diretos e indiretos nos primeiros três anos”. O apresentador sorriu ao ler.
O problema é que os números da RT-One não sobrevivem a uma verificação básica. Um data center de hiperescala emprega, em média, entre 50 e 200 pessoas em operação permanente — não dois mil. O próprio blog já documentou que o projeto da RT-One em Uberlândia gera menos de 100 empregos permanentes, com maioria de mão de obra especializada importada.
A categoria “indiretos” faz o resto do trabalho retórico. Todo mundo é emprego indireto se você contar largo o suficiente: o freteiro que entrega peça, a faxineira do escritório, o vendedor de café na esquina. Com essa matemática, qualquer obra gera “milhares de empregos”. A Globo não pediu o detalhamento. Repassou o número como se fosse fato.
”Empresa norte-americana” registrada em São Paulo
A matéria classifica a RT-One como “empresa norte-americana fundada por brasileiros”. A realidade é mais prosaica. A RT-One foi registrada em São Paulo em dezembro de 2024 — há menos de dois anos. Não tem operações comprovadas em data centers. Não tem clientes públicos conhecidos. Nenhum projeto concluído.
O CEO, Fernando Palamone, foi apresentado em 2024 como COO da Intel em Brasília. A Intel, em nota oficial ao Aos Fatos, declarou: “Ele não é COO da Intel Corporation e nunca foi.” A Globo não mencionou o desmentido público da Intel. Talvez porque estrague o sorriso.
A própria matéria carrega um sintoma de descuido: “que deidos”, lê-se no texto, num trecho sobre Palamone. Um erro de digitação que sobreviveu à edição e à revisão. Quando o copy não passa pelo copydesk, a reportagem também não passou pela checagem.
Carbono zero com diesel no tanque
A matéria repete sem ironia a promessa de “operação com carbono zero, utilizando fontes de energia limpa e renovável”. O apresentador sorriu de novo.
Um data center de 400 MW não opera sem backup. Quando a rede falha — e falha — os geradores entram em ação. A RT-One prevê geradores a diesel de backup para garantir uptime. Diesel não é energia limpa. Diesel não é renovável. Diesel não é carbono zero.
A certificação internacional de sustentabilidade é uma “meta”, segundo a própria matéria. Meta é o verbo “tender” da Fiemg: soa bem, não compromete nada. A Globo tratou a promessa como fato consumado. Não é. É greenwashing, e cabia à reportagem dizer isso.
O que a Globo disse e o que a Globo não disse
| A Globo disse | A Globo não disse |
|---|---|
| ”2 mil empregos” | Menos de 100 permanentes, maioria externa |
| ”Empresa norte-americana” | Registrada em SP em dezembro de 2024 |
| ”Carbono zero” | Geradores a diesel de backup |
| ”Primeira do Sudeste” | Sem EIA/RIMA, sem licença ambiental |
| ”CEO brasileiro Fernando Palamone” | Intel desmentiu vinculação publicamente |
| ”Aporte bilionário” | Isenção fiscal de 5 anos via Redata |
| Sorriso aberto em 09/07/2025 | Silêncio em 02/07/2026 na comissão da ALMG |
A coluna da direita é o trabalho que a Globo não fez. A coluna da esquerda é o trabalho que a assessoria de imprensa da RT-One fez por ela.
O sorriso seletivo
A emissora que explicou o que é um data center não explicou por que ele avança sem licença. A emissora que contou dois mil empregos não contou os menos de cem permanentes. A emissora que sorriu em julho de 2025 calou em julho de 2026.
No dia 2 de julho de 2026, às 10h da manhã, a Comissão de Meio Ambiente da ALMG reuniu pesquisadores, moradores e parlamentares para debater o projeto. A Globo não mandou repórter. Não mandou câmera. Não mandou sorriso.
Progresso com sorriso rende manchete. Licenciamento sem licença, não. A escolha editorial é tão transparente quanto os contratos da RT-One — ou seja, não é.
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