
A Assembleia perguntou. Quem tem as respostas não confirmou.
Em 30 de junho de 2026, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais publicou a pauta e a notícia da audiência pública sobre o data center da RT-One. Nesta quinta-feira (2/7), às 10h, no auditório José Alencar, a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável recebe pesquisadores e moradores para debater os impactos socioambientais do projeto de R$ 6 bilhões em Uberlândia. O próprio título da notícia da ALMG já é o resumo do problema: “Meio Ambiente questiona projeto de data center em Uberlândia”.
A questão não é a pergunta. É quem vai responder a ela. Na lista oficial de convidados publicada pela ALMG, o CEO da RT-One, o presidente da FEAM, o procurador do MPF, o ministro do Meio Ambiente e o secretário municipal de Meio Ambiente do prefeito Paulo Sérgio (PP) não confirmaram presença. Quem confirmou, em sua maioria, é gente que só pode fazer perguntas.
O que a ALMG publicou
O texto oficial da Assembleia é sóbrio. Diz, na essência:
“O projeto para instalar um centro de processamento de dados (CPD ou data center) em Uberlândia é tema de audiência pública a partir das 10 horas desta quinta-feira (2/7/26). A Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da ALMG recebe pesquisadores e moradores no auditório José Alencar, para discutir o assunto. Responsável por solicitar a reunião, a deputada Bella Gonçalves (PT) destaca que o objetivo é debater os impactos socioambientais da iniciativa.”
E, no parágrafo que define o nó do debate:
“Bella Gonçalves aponta a ausência de legislação sobre licenciamento ambiental para data centers. Também faltam estudos mais aprofundados sobre os impactos dessa instalação.”
A ALMG confirma, em texto oficial, o que este blog documenta há meses: não há licença, não há EIA/RIMA, não há marco normativo específico para licenciar data centers. A empresa anuncia R$ 6 bilhões e “empregos com energia sustentável” — e a Assembleia precisa abrir um auditório para descobrir se isso faz sentido.
Confirmaram: quem faz perguntas
Dos 21 convidados listados pela ALMG, seis confirmaram:
| Convidado | Cargo | Status |
|---|---|---|
| Lyssandro Norton Siqueira | Secretário — SEMAD (Estado) | Confirmado |
| Marcelo da Fonseca | Diretor-Geral — IGAM (águas) | Confirmado |
| Amanda Gondim | Vereadora — Câmara de Uberlândia | Confirmado |
| Wallaca | Presidente — Sindicato do Sema | Confirmado |
| Cynthia Picolo | Diretora — Lapin (participação remota) | Confirmado |
| Marcos Morais | Tecnologista e pesquisador em IA | Confirmado |
Note o perfil: dois órgãos técnicos estaduais, uma vereadora de oposição, um sindicalista, uma pesquisadora de políticas públicas e um tecnologista. É o lado que pergunta, fiscaliza e estuda. Nenhum deles decide se o projeto sai. Nenhum vai operá-lo.
Não confirmaram: quem tem as respostas
Aqui está o elenco dos fugitivos. Cada um, com a pergunta que deveria responder:
| Convidado | Cargo | O que deveria explicar |
|---|---|---|
| Fernando Palamone | CEO da RT-One | O próprio projeto — depois de ser desmentido pela Intel e não responder ao MPF |
| Renato Teixeira Brandão | Presidente da FEAM | Se a FEAM vai exigir EIA/RIMA — é o órgão que licencia o projeto |
| Ramon Gonçalves | Procurador do MPF | O inquérito civil aberto que apura danos ambientais |
| João Capobianco | Ministro do Meio Ambiente / Presidente do Conama | A ausência de legislação federal para licenciar data centers |
| Dilson Dalpiaz Dias | Secretário municipal de Meio Ambiente | A posição da Prefeitura — cargo nomeado pelo prefeito |
| Sylvio Andreozzi | Presidente do Conselho da Bacia do Araguari | O impacto hídrico — 239 mil litros/dia |
| Breno Lintz | Promotor (10ª Promotoria de Uberlândia) | A atuação do MPMG sobre o licenciamento |
O CEO da empresa que vai construir o data center não confirmou debater o próprio projeto. O presidente do órgão que tem de licenciá-lo, idem. O procurador que investiga o caso, idem. O ministro que comanda a política ambiental federal, idem. Sobram perguntas. Faltam as cadeiras de quem deveria respondê-las.
A RT-One, vale lembrar, já havia sido convocada a se explicar nesta mesma audiência, em artigo anterior deste blog. A resposta veio na lista da ALMG: “não confirmado”.
O prefeito: nem na lista
O prefeito Paulo Sérgio (PP) não consta entre os convidados publicados pela ALMG. A Assembleia convidou o secretário municipal de Meio Ambiente — o homem dele —, que também não confirmou.
É o mesmo padrão de 26 de março de 2026, quando a Câmara Municipal fez audiência sobre o data center e a Prefeitura não enviou ninguém. O artigo anterior deste blog já apontava: o maior projeto da cidade é debatido por iniciativa de uma deputada de oposição, enquanto o Executivo municipal some do plenário. A lista da ALMG agora mostra que a ausência não foi acaso. É método.
A pergunta que ficou no ar
A ALMG nomeou o debate com clareza: “Meio Ambiente questiona”. A Assembleia perguntou. Montou auditório, abriu a lista, chamou quem devia. Mas o CEO da empresa, o presidente do órgão licenciador, o procurador que investiga e o secretário do prefeito deixaram a pergunta sem endereço.
Se nem o dono do projeto nem quem deve licenciá-lo confirmaram presença, quem vai responder às perguntas que a Assembleia se dispõe a fazer?
Acompanhe a audiência ao vivo em almg.gov.br — 10ª Reunião Extraordinária da Comissão de Meio Ambiente, nesta quinta-feira (2/7), às 10h.
Fontes:
- ALMG — Meio Ambiente questiona projeto de data center em Uberlândia
- ALMG — Pauta e lista de convidados da 10ª Reunião Extraordinária (02/07, 10h)
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