
O debate chegou. Quem chamou não foi o prefeito.
Em 1º de julho de 2026, a página Eu Sou de Uberlândia publicou um aviso singelo. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais vai realizar audiência pública nesta quinta-feira (2), às 10h, para debater o data center da RT-One. O texto, na íntegra:
“A Assembleia Legislativa de Minas Gerais publicou que o projeto para instalação de um centro de processamento de dados (CPD), ou data center, em Uberlândia será debatido em audiência pública nesta quinta-feira (2), a partir das 10h.
O encontro foi solicitado pela deputada Bella Gonçalves (PT) e tem como objetivo discutir os possíveis impactos socioambientais da iniciativa. O empreendimento prevê um investimento de R$ 6 bilhões e faz parte dos planos da multinacional RT-One, que pretende instalar em Uberlândia o segundo data center de inteligência artificial da América Latina.
A deputada argumenta que ainda faltam estudos mais aprofundados sobre os impactos ambientais e também uma legislação específica para o licenciamento desse tipo de empreendimento. A audiência contará com a participação de pesquisadores, especialistas e moradores para debater o projeto.”
O detalhe que salta aos olhos não está no que o texto diz. Está no que ele omite: o nome do prefeito de Uberlândia. Paulo Sérgio (PP) não solicitou o debate, não convocou a audiência, não aparece entre os participantes. O maior projeto da história da cidade vai ser discutido no legislativo estadual — e o chefe do Executivo municipal sequer é citado na convocação.
”Solicitado pela deputada Bella Gonçalves (PT)”
A frase abre o segundo parágrafo do post e define quem tomou a iniciativa. Uma deputada estadual de oposição, do PT, precisou acionar a ALMG para que Uberlândia debata o data center que será instalado no seu próprio chão.
O prefeito, que governa a cidade onde o terreno de 1 milhão de m² foi reservado, nunca convocou uma audiência pública municipal sobre o tema. Quando a Câmara o fez, em 26 de março de 2026, a Prefeitura não enviou representante. O plenário ouviu pesquisadores, movimentos sociais e moradores — mas ficou sem interlocutor do poder que assinou o acordo com a RT-One.
Enquanto isso, o Facebook do prefeito registrou, no mesmo período, selo de transparência 97,1%, visita a escola no Pequis e lançamento de programa de empreendedorismo. Tudo muito ativo. Só o data center, o maior empreendimento da cidade, segue sem uma única audiência chamada por ele.
Se o silêncio fosse transparência, o índice seria ainda maior que 97,1%.
”Faltam estudos mais aprofundados”
A deputada Bella Gonçalves aponta, segundo o post, que ainda faltam estudos ambientais aprofundados e uma legislação específica para o licenciamento de data centers. O prefeito poderia ter dito o mesmo em fevereiro, quando o projeto foi anunciado com a FIEMG e a Cemig em Belo Horizonte. Não disse.
O que o blog documenta há meses coincide, ponto por ponto, com a constatação da deputada:
- O data center tramita sem EIA/RIMA e sem licença ambiental — nem a prévia (LP), nem a de instalação (LI), nem a de operação (LO).
- O projeto vive num limbo normativo entre a esfera municipal e a estadual, sem que ninguém assuma a frente.
- O parecer do DMAE aprovou 239 mil litros de água por dia sem estudo sobre o abastecimento dos bairros Pequis e Monte Hebrom.
- A empresa por trás do “segundo data center de inteligência artificial da América Latina” tem CEO de histórico controverso, desmentido pela própria Intel.
O prefeito minimizou o consumo dizendo que equivale ao de “300 casas”. A deputada, ao contrário, pede estudos. Um trata o data center como vizinho tranquilo; a outra trata como o que ele é: um complexo de 400 MW que, quando entrar em operação, pode demandar o equivalente a centenas de milhares de residências — e que, até agora, não tem licença para tanto.
A diferença entre os dois discursos não é de partido. É de quem leu o processo.
Quem fez o quê
A audiência de 2 de julho expõe, sem precisar gritar, a divisão de papéis:
| Quem | O que fez sobre o data center |
|---|---|
| Deputada Bella Gonçalves (PT) | Solicitou audiência na ALMG para debater impactos |
| Página Eu Sou de Uberlândia | Publicou o aviso e informou a cidade |
| Prefeito Paulo Sérgio (PP) | Não convocou audiência, não mandou representante em março, não citou o projeto no Facebook em meses |
O prefeito comemora abrir portas em Lisboa. Em Uberlândia, as portas do debate sobre o data center foram abertas por uma deputada de oposição e divulgadas por uma página local de notícias. O gestor do município entra na relação como figura ausente.
O convite que ninguém do Paço assinou
O post da Eu Sou de Uberlândia fecha dizendo que a audiência contará com pesquisadores, especialistas e moradores. É o público que toda audiência pública deveria ter. Falta, mais uma vez, o nome do prefeito entre os presentes esperados.
A pergunta que sobra não é sobre a RT-One, nem sobre a deputada, nem sobre a página que deu o aviso. É sobre o prefeito:
Se o data center é o maior projeto da sua gestão, por que foi a oposição que teve de chamar a cidade para conversar sobre ele?
Fonte: Facebook — Eu Sou de Uberlândia
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