Um trilhão de litros: o preço oculto da “nuvem”
Em 2025, data centers de big techs globais consumiram quase um trilhão de litros de água. Deixa sair do abstrato: trilhão é um milhão de milhões. Para refrigerar servidores que hospedavam seus e-mails, vídeos, feeds de redes sociais.
Enquanto isso, Uberlândia — que enfrenta secas recorrentes — aprovou uma RT-One que consumirá 239 mil litros diários apenas na aprovação inicial. A conta hídrica do Triângulo Mineiro acaba de piorar.
Os números que a prefeitura não divulgou
O DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgoto) aprovou 239 mil litros por dia para a RT-One. A própria prefeitura afirmou, sem envergonha, que é “menos que a água usada por 300 casas”.
Há dois problemas com essa conta:
-
É falso. 239 mil litros por dia equivalem a 87 milhões de litros por ano — o consumo de aproximadamente 870 casas, não 300.
-
Ignora a ampliação. Esses 239 mil é para 100 MW. Quando a RT-One expandir para 400 MW, o consumo será multiplicado por até 4. Data centers de grande escala consomem entre 3 a 5 milhões de litros por dia — equivalente ao consumo de uma cidade de 30 mil habitantes.
Água durante seca não é negócio. É sacrifício.
O Triângulo Mineiro vive crises hídricas periódicas. O aquífero Guarani, vital para a região, já sofre pressão de uso agrícola e urbano. Em 2024, Uberlândia enfrentou racionamentos. Em junho de 2026, chuvas record não salvaram a situação — apenas adiaram o problema.
Agora vem um data center que, na sua forma final, pode consumir 1 milhão de litros diários. Tudo para lucro de uma empresa privada norte-americana.
A ironia do “desenvolvimento sustentável”
A RT-One foi vendida como projeto de “classe mundial” de data center “verde”. Seus executivos falam em eficiência energética, refrigeração inovadora, responsabilidade ambiental.
Mas aí está a mentira central: não há refrigeração de data center que seja sustentável com água.
Um data center típico consome entre três e cinco milhões de litros por dia. Estude o ChatGPT: seu treinamento consumiu 700 mil litros de água. Cada 20 a 50 perguntas ao sistema consome 500 ml de água — o equivalente ao volume de uma garrafa plástica.
Agora multiplique isso por bilhões de requisições por dia, por meses, por anos. O consumo hídrico da “nuvem” nunca é contado na conta do usuário final.
Tabela: Água no Brasil e a RT-One
| Cenário | Litros/dia | Litros/ano | Comparação |
|---|---|---|---|
| Aprovado (100 MW) | 239.000 | 87 milhões | 870 casas |
| Ampliação (400 MW) | 1–2 milhões | 365–730 milhões | 3.650–7.300 casas / cidade 30k hab. |
| Brasil (todos data centers, 2022) | 5,5 milhões | 2 bilhões | 5% do consumo urbano |
| Projeção Brasil até 2029 | — | 30,4 bilhões | 8–10 bilhões casas-ano equivalentes |
A verdade sobre “eficiência”
Sim, data centers modernos são mais eficientes que os antigos. Conseguem refrigerar mais servidores com menos água. Mas essa eficiência é marginal diante do crescimento exponencial da demanda.
É como dizer que um carro consome menos gasolina mas viaja dez vezes mais longe. A conta total continua aumentando.
No Brasil, os data centers consumiram 2 bilhões de litros em 2022. A projeção para 2029 é 30,4 bilhões — 15 vezes mais em 7 anos. Uberlândia será um hub desse crescimento.
Onde está a água, afinal?
Parte do consumo direto da RT-One virá de poços e do sistema municipal. Mas a maior parte do seu consumo hídrico é indireto: embutida na geração de energia.
Riachos que abastecem hidrelétricas também abastecem agricultura, cidades, ecossistemas. Quando você desvia água para resfriar um data center, está desviando água de todos esses usos. É zero-sum: alguém fica sem.
Neste caso, quem fica sem são os pequenos agricultores, as cidades menores, os ecossistemas do Cerrado que já sofrem pressão existencial.
Silêncio oficial
O prefeito Paulo Sérgio não publicou um post explicando a aprovação hídrica. A FIEMG (Federação das Indústrias) apoiou o projeto mas não divulgou análises de impacto. O estado de Minas Gerais autorizou, mas sem transparência pública.
Quando uma prefeitura aprova 239 mil litros diários adicionais sem conversa pública sobre seca, aquíferos e projeções futuras, a aprovação é de fachada.
Fonte: Economic News Brasil, Jornal da Unesp
Leia também: