239 mil litros de água por dia — em uma região de crise hídrica crônica
O governo municipal aprovou um consumo de água de 2,77 litros por segundo para a RT-One. Isso é 239 mil litros por dia. Todos os dias. Chuva ou seca.
Para colocar em perspectiva: uma cidade de 50 mil habitantes consome aproximadamente 80 mil litros por dia. A RT-One consumirá o equivalente a três cidades inteiras — apenas para resfriar máquinas.
E Uberlândia está em crise hídrica.
A seca que o governo escolhe ignorar
Junho de 2026: registramos a maior chuva em 20 anos. Mas qualquer agricultor do Triângulo Mineiro dirá que uma chuva isolada não resolve nada. A crise hídrica é estrutural. O aquífero Guarani está em risco. Os níveis dos reservatórios oscilam entre pânico e desespero.
E foi neste contexto — de crise real, documentada — que a administração municipal autorizou um consumo de água equivalente a três cidades.
O DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgotos) aprovou. O prefeito Paulo Sérgio não fez objeção pública. A Câmara não discutiu. A RT-One assinou contrato.
Ninguém parou para perguntar: e quando faltar água?
”Circuito fechado” é mentira. Aqui está por quê.
A administração municipal alega que o sistema de refrigeração será de “circuito fechado”, reduzindo perdas. É uma técnica legítima — mas não elimina o consumo. Água circula, evapora, é perdida em manutenção, em vazamentos, em reposição. Uma taxa de perda de apenas 2-5% em sistemas de circuito fechado ainda significa 5 a 12 mil litros de água PERDIDOS, não reciclados, todos os dias.
Isso é água que sai do aquífero e não volta.
E a documentação publicada pelo DMAE deixou claro: não há estudos de impacto hídrico de longo prazo. A aprovação foi feita sem simulações de cenários de seca ou colapso de aquíferos.
Enquanto isso, a população paga multa por desperdício
Uberlândia cobra multas de residências que excedem cotas de consumo de água. Famílias são penalizadas por lavar carro duas vezes no mês. Condomínios sofrem racionamento. Empresas têm seus certificados ambientais questionados.
E uma corporação estrangeira pode consumir água suficiente para três cidades.
A hipocrisia não é uma crítica — é uma política oficial.
O projeto sem licença ambiental que consome água de um aquífero em risco
Aqui está o ponto que deveria despertar escândalo: a RT-One ainda não tem licença ambiental.
Sem EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental). Sem LP/LI/LO (Licença Prévia, Licença de Instalação, Licença de Operação). Nada.
O que existe:
- Uma aprovação municipal da água pelo DMAE (2025)
- Um “parecer” do DMAE que deixa em aberto os cenários de crise
- Um inquérito civil aberto pelo Ministério Público Federal
- Tramitação em “limbo municipal/estadual”
O que não existe:
- Avaliação independente do impacto hídrico
- Estudos sobre colapso de aquíferos
- Planos de contingência para seca
- Responsabilidade definida em caso de falha
A RT-One — uma corporação estrangeira que você não conhece, cujo CEO tem histórico controverso — vai consumir água de um aquífero que pertence a todos nós, sem fiscalização ambiental real.
A água de hoje é a água que falta amanhã
Dados do IBGE mostram que o Triângulo Mineiro já enfrenta pressão hídrica. Projeções climáticas indicam que períodos de seca vão se intensificar. Não é especulação — é tendência documentada.
Quando a seca chegar, haverá fila:
- Consumo doméstico (população)
- Consumo agrícola (economia local)
- Consumo industrial (empresas)
- Consumo de data center (corporação estrangeira)
Adivinha quem vai sofrer racionamento primeiro? Adivinha quem vai pagar mais pela água?
Não é a RT-One. É você.
Os bairros que vão pagar o preço real
A RT-One fica a poucos quilômetros de Pequis e Monte Hebrom. Não é verdade que seja “zona rural isolada”. São bairros onde vivem pessoas. Famílias. Crianças.
Quando a água ficar cara, quando racionarem, quando secarem os poços — o impacto não será distribuído igualmente. Será concentrado onde os maiores consumidores estão próximos.
A RT-One criará sua própria escassez de água na região. E a população local vai pagar por isso.
Comparação: quanto outros países exigem
Na Europa, data centers de grande escala passam por avaliação ambiental estratégica (AAE) antes de qualquer aprovação. Na Califórnia, consumo de água por data center é monitorado em tempo real e sujeito a restrições em períodos de seca. Na Irlanda, projetos similares foram rejeitados por riscos hídricos.
E aqui em Uberlândia? Aprovação rápida, sem estudos completos, sob pressão de investimento.
A verdade que o prefeito não quer que você saiba
Paulo Sérgio nunca publicou:
- Contrato com a RT-One (valores reais, cláusulas de água)
- EIA/RIMA (se existir)
- Parecer técnico completo do DMAE
- Análise de impacto hídrico de longo prazo
- Plano de contingência para seca
Por quê? Porque quando a população vê os números, quando entende o risco, quando vê que vão pagar mais por água para que corporação estrangeira resfriem máquinas — a resistência cresce.
Então o prefeito faz o que sabe fazer: posta fotos de creche no Facebook. Omite. Silencia. Deixa a máquina administrativa rodar sozinha, sem prestação de contas.
O Ministério Público Federal já viu o risco
Há um inquérito civil aberto pelo MPF. Não é acusação formal ainda — mas é um sinal: órgãos federais já identificaram irregularidades no processo.
Se as instituições estão investigando, é porque há mais que “precaução ambiental”. Há sinais de ilegalidade.
Enquanto isso, a obra continua. A RT-One segue comprando terreno. O prefeito segue silencioso.
O que você pode fazer
- Exija transparência: Peça ao prefeito que publique todos os documentos de aprovação de água, EIA/RIMA e pareceres técnicos
- Acompanhe o MPF: O inquérito civil é público; você pode pedir informações via Lei de Acesso à Informação
- Alerte vizinhos de Pequis e Monte Hebrom: Saibam que serão os primeiros a sofrer impactos hídricos
- Apoie moratória: A proposta de moratória de data centers em Uberlândia ainda está viva
- Denuncie: Se souber de irregularidades, procure o MPF, a Defensoria Pública ou a Câmara
A verdade simples:
A RT-One vai consumir água suficiente para abastecer três cidades. Uberlândia está em crise hídrica. Não há licenciamento ambiental real. O Ministério Público está investigando.
Nenhuma quantidade de promessa de emprego compensa o risco de colapso hídrico.
Fonte: Consumo de água em data centers, DMAE parecer RT-One — críticas, Aquífero Guarani em risco, Triângulo Mineiro crise hídrica, RT-One sem licença ambiental
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